Schama tropeça na ruína moderna

Historiador inglês fala sobre representação da tragédia na arte através dos tempos, mas dá pouca atenção a contemporâneos

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

13 de novembro de 2008 | 00h00

O professor de história da arte inglês Simon Schama, de 63 anos, anda preocupado com o apocalipse. Filho da segunda geração de imigrantes judeus com raízes na Lituânia e Turquia, Schama, que terá três livros publicados no Brasil em 2009, passou todo o período eleitoral americano nas telas da BBC, tentando entender por que os EUA se metem em tantas encrencas pelo mundo afora. A série, transmitida em outubro, chama-se The American Future: a History, e vai ser lançada em forma de livro, em março, pela Companhia das Letras. Antecipando a discussão sobre os conflitos que permitem entender a situação política atual, Schama fez, anteontem, uma palestra no Porão das Artes da Bienal, dentro da série Fronteiras do Pensamento Braskem, falando de um tema correlato, a representação desses conflitos e tragédias por artistas de todos os tempos.Schama é autor de uma série de televisão feita para a BBC há dois anos, The Power of Art (que também será publicada em livro pela Companhia, em junho), em que tenta sintetizar a arte ocidental de três séculos por meio de oito obras fundamentais assinadas por Caravaggio, Rembrandt, Jacques-Louis David, Turner, Van Gogh, Picasso e Rothko. Assina ainda outra série milionária que rendeu a ele o maior salário jamais pago a um historiador de arte (US$ 5 milhões), Rough Crossings: Britain, Slaves and the American Revolution (ainda sem título em português, mas já comprada pela Companhia das Letras). Schama está, assim, autorizado a falar sobre arte e revoluções, considerando as críticas que fez ao colonialismo inglês na última série, ao mostrar como os lordes do Império Britânico tratavam os escravos rebeldes de suas colônias.Schama é bom apresentador e tem voz excepcional, mas sua palestra sobre a representação de catástrofes através dos tempos foi um tanto decepcionante, um pouco pela timidez com que avança no terreno da arte contemporânea para analisar como os artistas viram a tragédia do 11 de setembro e a conseqüente punição aplicada pelos americanos aos prisioneiros de Abu Ghraib. Compreensível. Schama, que deu aulas na Universidade de Columbia e ganhou uma bolsa em Oxford para estudar a Revolução Francesa, é também um especialista em história holandesa, especialmente sobre o período áureo de sua arte no século 17, em que restava ao artista ser amparado pelos poderosos ou cair na lama. Assim, a palestra de Schama deu meia volta, esqueceu as Torres Gêmeas e buscou seu foco nas representações de conflitos bélicos por artistas franceses, espanhóis e holandeses de séculos passados, falando pouco de contemporâneos (entre eles o alemão Kiefer) e ainda assim escolhendo exemplos infelizes como a série que o brega Botero fez de Abu Ghraib em 2005, uma ilustração de gosto duvidoso supostamente crítica à tortura de prisioneiros na malfadada prisão.Botero é tão paródico e detestável quanto as fantasias de Halloween que circularam pelas festas americanas e imitavam o prisioneiro coberto com capuz negro e fios de Abu Ghraib, logo depois da circulação das fotos das torturas pela internet. Não merece ser levado a sério. É apenas mais um desses fenômenos do mercado de arte, que elegeu açougueiros como Damien Hirst. Por que, então, Schama escolheu um exemplo tão infeliz após analisar Guernica de Picasso? E, principalmente, por que repetir o que o professor Stephen Einsenman já observou em seu livro (The Abu Ghraib Effect ) sobre o obsessivo imaginário de agressão na arte ocidental contemporânea? Estaria o Ocidente condenado a essa onipresença, a uma cultura marcada pela brutalidade e a ignorância, após renunciar aos padrões de beleza greco-romanos? Bem, pensando em Botero, a resposta seria, evidentemente, sim, mas Botero não representa (felizmente) a arte ocidental e não merecia figurar ao lado de Rubens, Vermeer, Goya e Picasso, alguns dos artistas selecionados por Schama em sua palestra. O contraponto exibido por Schama a todas as representações de guerras, fuzilamentos, torturas e catástrofes na pintura foi o Apolo Belvedere, a mais conhecida escultura da Antiguidade clássica, aquela em que o deus grego é retratado no momento em que derrota a serpente Píton. Esse Apolo, adorado pela renascentistas, passou a ser identificado com a perfeição e tudo indica que ela o seja também para o esteta Schama. A arte, ou a verdadeira arte, considerando o argumento do historiador, vive de reparar ruínas e catástrofes - e ele chegou a exibir uma reprodução da tela Vista de Delft (1659-1660) de Vermeer para mostrar como o artista imaginou a cidade reconstruída após sua destruição.Pulando três séculos, Schama chegou ao alemão Kiefer para analisar como o artista retratou a tragédia nazista, calcinando telas e grudando fragmentos do mundo real em gigantescos painéis feitos de chumbo, palha e restos de roupas. Não foi a mais brilhante frase que alguém já ouviu sobre Kiefer, a de que o território calcinado da tela seria uma alegoria da queima dos livros na Alemanha de Hitler. Tampouco a de que suas pirâmides descascadas são representações metafóricas da morte da humanidade e do fim dos tempos, até mesmo porque o trabalho de Kiefer é ambivalente e suporta uma releitura que o associe a Heidegger. O filósofo, evoque-se, viu centenas de livros queimarem na Universidade de Freiburg quando era reitor, e ainda assim aceitou e exaltou Hitler. Kiefer pode ter feito a crítica do nazismo, mas o fato é que perseguiu a "obra de arte total" e adotou a filosofia de Heidegger.Melhor sorte teve Schama ao comparar a obra de Goya e sua releitura por Picasso, mostrando a ressonância de Os Fuzilamentos de 3 de Maio (El Tres de Mayo) de Goya na construção da obra-prima de Picasso, Guernica. A arte deixa de ser apenas um testemunho da crueldade para ser documento de uma época. Ambos não querem criar empatia com o espectador, mas despertá-lo da alienação. A nova poética contemporânea, segundo Schama, teria trocado a narrativa pelo discurso da ruína anunciado por Paul Celan. Se é obsceno fazer poesia depois de Auschwitz, seria mais obsceno pintar depois do 11 de setembro?

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