Saul Bellow e o êxtase do idioma

Em As Aventuras de Augie March, o Nobel de 1976 conta a trajetória de um personagem que cresce em meio à Crise de 29

Vinicius Jatobá, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Que Saul Bellow, incensado e reconhecido, ganhador de um Prêmio Nobel, seja o maior segredo de uma grande tradição literária como a estadunidense, já é choque o bastante; no entanto, a equação se complica quando De origem canadense, Bellow é colocado no posto que merece realmente ocupar: de melhor escritor estadunidense do século 20. Nenhum outro autor daquela latitude tornou tão regular a excelência quanto Bellow - é um daqueles raros artistas que jamais assinaram uma obra ruim. Do seu primeiro livro, o angustiado diário ficcional Dangling Man, de 1944, à engenhosa novela Ravelstein, publicada meio século depois, Saul Bellow construiu uma obra admirável: progressiva e ambiciosa, por um lado; anacronicamente legível e vernacular em um século que retirou da esfera da Grande Arte o gosto do cotidiano - o sal que move o genericamente chamado homem comum, essa imprecisa fabulação poética.

Com a publicação de uma nova tradução, feita por Sonia Moreira, de As Aventuras de Augie March (Companhia das Letras, 704 págs., R$ 67), o público brasileiro tem mais uma oportunidade de se reconciliar com Saul Bellow. É, sem dúvidas, o melhor ponto de entrada em seu universo. Os primeiros dois livros de Bellow eram controlados e tensos: com uma prosa cristalina, tornava completamente visível a experiência interior de seus protagonistas. Augie March muda tudo. O escritor apostou alto nesse romance de 1953: ele representa o êxtase do idioma americano, uma prosa em que o sabor do vernáculo, com todo seu senso de improviso e poesia, entra em namoro com uma ideia babélica de experiência urbana. Romance de formação, história de um homem que cresce em meio à Crise de 29, a picaresca construída por Bellow tem um sabor diferente dos romances usuais do gênero - nele, não se acompanha o desencadeamento lógico de uma personalidade. O que se vê em Augie March é a voragem de conhecimento de um indivíduo sendo deformada pela voltagem de improviso que a experiência urbana lhe oferece. Em cada esquina, uma nova história; cada pessoa é fonte de um saber único; as ideias atravessam sua vida com a mesma exuberância sedutora que as mulheres - e há muito adiante por ser descoberto para se ocupar com o passado, mesmo recente.

De certa forma, Augie March inaugura um idioma literário particular que Bellow irá decantar até o esplendor de seus dois melhores romances - Herzog e O Legado de Humboldt. Em Augie March se testemunha a empolgação do ficcionista com uma nova forma de encaminhar sua trajetória literária - ampla, voraz, onívora, maior que o mundo; no entanto, o romance se ressente um pouco por isso. Há uma vitalidade e um senso de improviso constante na leitura - um risco tanto do enredo, que nunca perece ter um caminho predefinido, como também da peripécia, uma vez que qualquer coisa pode acontecer com o protagonista. Assim, a prosa abandona a qualidade mineral dos primeiros dois livros para se misturar com ritmos do vernáculo, oralizados e jocosos, e a visibilidade dos conflitos torna-se mais nublada pelo esplendor entrecortado da experiência urbana. A cidade é uma escola que educa e aliena, forma e deforma, acolhe e repele - e Bellow capta essa poesia com engenho como nenhum outro escritor americano depois de John Dos Passos.

A questão é que há um momento em que Augie March começa a agir exatamente como um "personagem de romance", como se o número de páginas excedesse aquilo que ele tem a oferecer. O mesmo senso de liberdade e vitalidade que assalta o leitor no início do livro torna-se, mais próximo do final, uma espécie de gag repetida à exaustão. Há uma bizarrice no romance - uma viagem de March ao México - que é o sintoma mais evidente de algo que se torna discernível a partir da metade do livro; que Bellow está tão apaixonado pelo idioma que explora e o universo dos personagens que parece não encontrar uma forma de acabar o livro. A estrutura algo aberta com que construiu o enredo, e lhe dá um senso de liberdade, começa a se tornar uma algema sui generis a partir do momento que torna tudo interessante. E se tudo fascina, qual o ponto de fuga?

O próprio Saul Bellow, ao publicar sua incontestável obra-prima Seize the Day logo após Augie March, teve clara consciência desses excessos. Respondeu uma narrativa caudalosa e interminável com uma novela hiperconcentrada. Assim, retomou certos preceitos de cristalinidade e de visibilidade que nortearam seus dois primeiros romances, mas em diferença, dotando-os com um senso de humor e sabor vernacular que rapidamente se tornariam sua charmosa marca registrada, um tom narrativo inconfundível que só poderia adquirir após a rica experiência de escrever As Aventuras de Augie March - essa grande narrativa excessiva para pessoas excessivas. Romances como Herzog e O Planeta do Sr. Sammler, com seus personagens maiores que a vida, são expansivos e cromáticos como Augie March - e no caso de Herzog, mantém até a mesma estrutura aberta e de risco -, mas em nenhum deles Bellow parece perder as rédeas de suas personagens. Não há sobras. Porém, antes dos bailes austeros e elegantes, que venha o carnaval. E é de se esperar que As Aventuras de Augie March represente o início de uma nova vida editorial de Bellow no País. Nada mais justo, uma vez que o único escritor da cultura estadunidense que pode encarar olho no olho o monólito William Faulkner merece ter seus livros em catálogo. A lacuna começa a ser preenchida.

Vinicius Jatobá é crítico literário

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