Saudades dos velhos carnavais

Toda terça-feira de carnaval, rola um artigo meu. Todo ano, arrisco sociologias ou antropologias atabalhoadas, "profundidades" psicológicas sobre cultura e natureza; coisas como "nosso carnaval mostra o Inconsciente brasileiro à flor da carne(...)", "talvez o carnaval seja uma doença salvadora". Já escrevi até que "o carnaval é anti-Bush, anti-Iraque. É o antídoto devasso contra o pragmatismo fundamentalista".. Pode uma coisa dessas?Por isso, em meio ao tumulto que é o carnaval de hoje, só falarei dos tempos mais delicados, mais baldios, onde morava sua frágil poesia.O carnaval chegava em dezembro ainda, com as cigarras chiando no alto dos flamboyants, com flores sangrentas dentro da imensa cúpula azul que cobria o verão. O carnaval vinha aos poucos, não explodia de repente na TV como hoje; cedo, se anunciava, com os sambas e marchinhas nos rádios. Já escrevi sobre algumas dessas imagens remotas.No Rio, de dia faltava água e de noite faltava luz. E a marchinha crítica pedia a Deus: "Tomara que chova três dias sem parar, a minha grande mágoa é que lá em casa não tem água eu preciso me lavar!"Do fundo de meu passado surge a proa de um grande navio fosforescente, dourado e prata, onde navegava uma linda mulher, só com uma folha de parreira de lantejoulas, a primeira mulher nua que eu vi, ao lado de meu pai que me levava pela mão na avenida. Seu olhar ficou torto quando apareceu a vedete triunfante sobre o carro alegórico dos "Tenentes do Diabo". Vi que pais de família ali perto detestaram por instantes as esposas, as sogras, os filhos e quiseram fugir com as sereias nuas de Copacabana: a Luz del Fuego, a Eros Volusia, a Virgínia Lane.Antes, só as atrizes se despiam. Hoje as peruas também querem ser "mulheres da vida", como falava minha mãe, com ciúmes de meu pai esgazeado diante da Elvira Pagã nua.Vejo a Casa Turuna - de fantasias -, suas máscaras de diabo, morcego ou de caveira, roupas de pirata, havaianas inspiradas nas coxas de Dorothy Lamour ou de Eleanor Powell dançando no Havaí, fantasias de caubói, de espadachins como Errol Flynn, dos sonhos americanos que já povoavam nosso imaginário.Lembro também dos anjos de cara suja, dos blocos das "escrotas", dos blocos dos vagabundos, dos bêbados ornamentais, da crioulada pobre. Esses molambos e pirados criavam uma autocaricatura que denunciava a mixaria de suas vidas tristes. De certa forma, os blocos de sujos se fantasiavam de "brasileiros"... (olha eu fazendo sociologia de galinheiro, de novo. Voltemos às memórias).Vejo os "clóvis" (clowns) de Santa Cruz correndo e gritando (até hoje), mendigos rebolando, confundidos com foliões, escolas de samba sem alegorias, sem alto-falantes, no chão da avenida com baianas imensas girando e tribos de indios vestidos com penas de espanador e bigodes, os primeiros veados assumidos desfilando (às vezes, levavam porrada, pois era duro ser gay nos anos 50), os primeiros travestis, filhos da bicha precursora francesa Coccinelle, as roupas de luxo de Clóvis Bornay, herói vanguardeiro dos concursos de fantasia com seus nomes maravilhosos: "Esplendor e Morte da Rainha Cleópatra", a bicha com um escravo negro abanando-a com ventarola egípcia, apertando no peito uma serpente venenosa, Madame Satã, precursor das drag queens, forte capoeirista bom de briga, saindo na porrada com os policiais de cassetete, ele vestido de bailarina, peruca loura, dando-lhes rasteiras de salto alto.Vejo os primeiros biquínis, os banhos de mar à fantasia na Praia de Copacabana, ainda com Cadillacs e Studbakers paquerando "brotinhos", fantasias de papel crepom laranja e azul se desfazendo no mar, entre as coxas das moças inatingíveis.Ouço ainda Lamartine Babo, na TV preta e branca ou nos rádios Capelinha, gorjeando como um passarinho rouco, aquele gênio magrinho, de summer jacket, cantando Quem Foi Que Inventou o Brasil?. Emilinha Borba, Marlene, o afro-negão Black-out anunciando que "chegou o general da banda êê!" (bem antes de chegarem os generais de 64), o Jorge Veiga, único cantor "fanho" da história do mundo, as irmãs Batista, Dircinha e Linda, que depois morreram loucas num apartamento imundo (uma tinha sido amante do Getúlio).Havia muito menos gente, sem sexo esfregado na cara; era um carnaval com esperança de se encontrar um grande amor na esquina, um carnaval sem camisinha (na época, os preservativos eram as poéticas "Camisas de Vênus" e amanheciam boiando no mar - provas do pecado noturno).As peruas do Café Society não iam para as ruas; só dançavam de vestidos tomara-que-caia, com o marido de smoking no baile do Municipal.Vejo o Baile das Atrizes, Mara Rubia, Angelita Martinez e todas as desejadas coristas, algumas cavalgando os ombros de foliões atléticos, as lindas coxas estrangulando-lhes o pescoço, lembro do famoso "baile do cabide" (verdade ou mentira?), mitológica orgia onde o sujeito entrava, pendurava a roupa no cabide e caía no salão com todo mundo nu.O lança-perfume dourado ejetava o éter perfumado no lenço que cheirávamos. E o mundo começava a rodar. A música das avenidas ficava longínqua, os gritos se abafavam, as cuícas e tamborins gemiam mais lentos e nós desmaiávamos no chão, entre colombinas e tirolesas.Ainda sinto o tremor dos porres homéricos, lívidos rapazes nos meios-fios, o bicarbonato, os vômitos salpicados de confetes, malandros esfaqueados com sangue no asfalto, as manchetes dos jornais: "Rasgou à faca o coração da amante."E os beijos no banheiro do baile, os chupões e sarros na chuva quente, com gosto de cerveja, os "amassos" na praia dando dores nos rins da rapaziada, porque menina não dava nem morta antes da pílula, os beijos sem destino, os céus de purpurina, as teias de serpentinas coloridas. E o carnaval terminava, como uma chuva de estrelas e perfumes.

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