Satyros encenam Liz fora de casa

Espetáculo estreou em Cuba, onde foi premiado, e agora inicia carreira no Sesc e não na sede do grupo na Roosevelt

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

Toda a ação da peça Liz, do cubano Reinaldo Montero, se passa na Inglaterra de Elizabeth I (1533-1603), soberana que enfrentou fortes pressões externas e internas para se manter no poder, perseguiu e matou rivais, mas foi também estadista de grande envergadura e transformou a Inglaterra numa nação potente. Não deixou sucessores e a dinastia dos Tudor acabou com ela. Numa mistura bem urdida de ficção e realidade, essa rainha, seus conselheiros, cortesãos e os artistas de sua época são personagens dessa peça que estreia hoje no Sesc da Avenida Paulista na encenação do grupo Satyros. Além da soberana, a Liz do título, vivida por Cléo de Páris, estão em cena o poeta Christopher Marlowe (Ivam Cabral), Shakespeare (Tiago Leal), o conselheiro Burghley (Fábio Penna) e sir Walter Raleigh (Germano Pereira), um explorador que viajou pelas Américas, entre outros personagens históricos. Há ainda uma dupla importante: homem definido pelo autor como assassino humanista (Alberto Guzik) e outro, o "assassino e só" (Chico Ribas). E dois narradores onipresentes interpretados por Silvanah Santos e Phedra D. Córdoba."Deus onisciente, tens certeza de que os justos herdarão teu reino?", pergunta Marlowe num trecho da peça, cujo autor claramente lança mão do recurso de voltar no tempo para retratar inquietações e questões de Cuba nos dias de hoje. Se todo o sentido da peça girasse em torno da ilha de Fidel ainda assim teria interesse, porém restrito. "As possibilidades de leitura vão muito além", garante o diretor Rodolfo Garcia Vásquez. "O autor parte de pesquisa histórica para criar um panorama bastante abrangente da relação entre artista e poder."Ele conta que, de início, o texto pareceu difícil pela presença dos personagens históricos. "Na primeira leitura, tudo soava distante por conta das referências históricas, todas inglesas, mas aos poucos começamos, nós todos dos Satyros, a nos ver em cada linha." Vásquez assina a direção da montagem que estreou em Cuba, ano passado, e lá recebeu o prêmio de melhor espetáculo de 2008.Embora toda a ação se passe na Inglaterra e boa parte dela no palácio, cenografia e figurinos coloridos, quase tudo feito em retalhos, remetem à simplicidade colorida das festas populares. Na mesma linha, seguem as interpretações, em tom coloquial, sem pompa. "Somos um grupo de teatro brasileiro falando desse conflito entre artista e poder público, que padece das precariedades dessa relação. Optamos por uma atmosfera de salsa para falar disso.Não por acaso, os Satyros, protagonistas na chamada revitalização da Praça Roosevelt, estreiam fora de sua casa. Essa praça, já considerada uma das zonas mais perigosas da cidade, revalorizou-se a partir do movimento de espectadores em torno dos pequenos teatros ali instalados. Mas o reconhecimento da participação dos Satyros nesse movimento parece não trazer benefícios. "Estamos sem qualquer patrocínio, público ou privado, há mais de um ano", diz Vázquez. Na peça existe a Escola da Noite, um ?antro? onde os poetas são ateus e, portanto, subversivos, uma vez que o poder da rainha é divino. Qualquer semelhança... ServiçoLiz. 80 min. 14 anos. Sesc Avenida Paulista. Espaço 3º andar (50 lug.). Avenida Paulista, 119, tel. 3179-3700. 6.ª a dom., às 21h30. R$ 20. Até 31/5

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