Saramago deseja mais vida e tempo

Autor emociona em noite de autógrafos; ampla exposição desvenda seu universo

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2008 | 00h00

Em mais de uma vez, o escritor português José Saramago, de 86 anos, afirmou que seu novo livro, A Viagem do Elefante, é o mais jovial que escreveu. "Como dizer do mistério do espírito humano de não fazer o que naturalmente faria?", disse o escritor, Prêmio Nobel de Literatura de 1998, diante de um teatro lotado, o do Sesc Pinheiros, onde realizou, anteontem à noite, o lançamento mundial de sua nova obra. "O livro foi escrito num estado de felicidade e de serenidade", disse Saramago depois de contar sobre a grave doença que o acometeu no ano passado e que o "ameaçou de morte". Saramago fez uma fala emocionante e bem-humorada no Sesc Pinheiros; ressaltou, por duas vezes, que quando um jornalista português lhe perguntou o que ele queria mais depois de sua glória, responde então, para todos, agora também, que só deseja "tempo e vida".   Veja entrevista com Saramago Foi o próprio Saramago quem escolheu fazer o lançamento de A Viagem do Elefante (editado no Brasil pela Companhia das Letras) em São Paulo. O evento contou com a participação ilustre da atriz Sandra Corveloni, que fez a leitura para o público de trecho do livro que conta a viagem de um elefante, em 1551, entre Portugal e Viena, já que ele havia sido dado de presente por d.João III para o arquiduque austríaco Maximiliano II. Sandra conseguiu fazer aparecer emas linhas de fina ironia e humor presentes no texto, o que tirou sorrisos e risos da platéia. Saramago foi também por mais de uma vez ovacionado.Mas a presença do escritor no Brasil não se encerra apenas com o lançamento do livro. No Instituto Tomie Ohtake é aberta hoje para o público a mostra José Saramago: A Consistência dos Sonhos, rara oportunidade de se entrar no universo do escritor como um todo, desde sua infância rural na aldeia de Azinhaga até sua consagração. Há manuscritos, fotografias, cadernos, documentos, obras e instalações audiovisuais - e, o que é ainda mais curioso, pode-se até descobrir uma série de trabalhos inéditos de Saramago, como poesias, romances e peças de teatro, escritos entre 1945 e 1953 -, dentre eles está o livro Clarabóia, concluído, em 1953, mas só será publicado depois da morte do autor, tal é sua vontade. A mostra tem essa beleza de dar tanto espaço para o Saramago desconhecido e nos conduz por frestas e por tantos caminhos para o que é o mundo de um escritor - metódico, no caso do português.A exposição, já exibida em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, onde vive, e em Lisboa, é realizada pela Fundação César Manrique e Fundação José Saramago. O curador da mostra, o espanhol Fernando Gómez Aguilera, diretor da Fundação César Manrique, conhece Saramago desde 1993. Foi dele a idéia de homenagear Saramago com um pé de oliveira (tão simbólico) carregado de frases do escritor. Aguilera destaca uma delas: "O que é obsceno é que se possa morrer de fome." "Este é um presente para José. Suas idéias estão vivas", diz o curador. ServiçoJosé Saramago: A Consistência dos Sonhos. Instituto Tomie Ohtake. Av. Faria Lima, 201, Pinheiros, 2245-1900. 11/20 h (fecha 2.ª). Grátis. Até 15/2

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