São Paulo Underground faz estilhaços da massa sonora

The Principle of Intrusive Relationship é uma usina de ritmos, acústicos e eletrônicos

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

A aventura da improvisação coletiva no universo das músicas populares foi iniciada com Intuition e Digression, duas gravações de março de 1949 do pianista Lennie Tristano com o guitarrista Billy Bauer e os saxofonistas Lee Konitz (no alto) e Dave Marsh (no tenor). "O free nasceu ali", diz Konitz. Ele tem razão. Nos últimos 60 anos, o jazz passou a conviver com duas vertentes bem definidas: de um lado, os músicos bem comportadinhos, tonais, revisitando os vários estilos anteriores, no chamado eterno retorno do mesmo; de outro, os radicais, a vanguarda, que levaram o improviso coletivo ao limite, fazendo-o esbarrar na música contemporânea. Músicos como Anthony Braxton, Gianluigi Trovesi e Marylin Crispell, entre outros, fazem música improvisada praticamente no mesmo nível da criação contemporânea de nomes como Salvatore Sciarrino e tantos outros. Há até trânsfugas, como o dublê de trombonista de jazz e compositor contemporâneo Bernhard Lang.Essa introdução se destina apenas a mostrar que existe sim um mundo fascinante da criação musical a ser descoberta por públicos mais amplos. Ela hoje vive em guetos. São circuitos mais ou menos fechados, autônomos. Os músicos dizem que a mídia não se interessa por seu trabalho - o que não deixa de ser verdadeiro. No outro lado do ringue, o público e a própria crítica musical parecem não entendê-los e os descartam mesmo, acusando-os de complexidade demais. Será porque não falam uma linguagem musical que soe doce, redondinha, aos ouvidos? A internet abriu as comportas e democratizou produção e distribuição da música. Mas na web a concorrência conta-se em milhões, bilhões até, de sites, gravadoras digitais, blogs, etc.Ou seja, o isolamento desse tipo de músicos altamente talentosos é tão grande quanto o de Ornette Coleman, que só agora, aos 77 anos, foi premiado pelo conjunto da obra, ganhando o Pulitzer de Música de 2007. Não por acaso, o disco The Shape of Jazz to Come foi lançado em maio de 1959, meio século atrás. E ainda provoca estranhamento hoje. Parafraseando e ampliando o que escreveu semanas atrás neste Cultura o filósofo Vladimir Safatle, a onda conservadora ultrapassa as gôndolas das livrarias: invade as artes, empurra a criação radical para nichos cada vez mais esotéricos. Com certeza, Tristano, Konitz, Marsh e Coleman tinham uma comunidade artística de apoio mais efetiva do que a de hoje, praticamente inexistente, tendo que travar combates com um establishment hoje bem mais conservador e refratário ao novo. Deixei para o fim a grande revelação. Pois um CD gravado em São Paulo, intitulado The Principle of Intrusive Relationship, acaba de ser escolhido, com 50 votos de críticos especializados, como o disco do ano de 2008 da revista inglesa Wire. A publicação é a bíblia mundial da música improvisada, no sentido que tentei descrever acima. É mais ou menos como se a Osesp ganhasse como a melhor orquestra sinfônica do planeta na premiação anual da revista Gramophone (e ela só foi apontada como uma das três orquestras para se prestar atenção em 2009). Ou que um filme brasileiro ganhasse o Oscar como filme do ano. É importante, muito importante mesmo esta premiação. O trompetista norte-americano Rob Mazurek, de 43 anos, que fundou grupos como Chicago Underground Collective e Exploding Star Orchestra, criou o São Paulo Underground. Mazurek uniu-se a três músicos paulistanos: Maurício Takara, Guilherme Granado e Richard Ribeiro. São oito faixas com títulos que podem enganar os incautos: Final Feliz, Entre um Chão e Outro, Cosmogonia, Ímã e Só por Precaução. O magma sonoro que os une é o ritmo - uma verdadeira usina de ritmos, acústicos e eletrônicos faz caminhar um discurso musical fragmentado e estilhaçado. Há momentos em que o trompete de Mazurek quase ensaia um tema. Mas imediatamente outro padrão rítmico se sobrepõe. É música em processo. A música contemporânea também estilhaça o discurso musical - mas o faz apoiada na escrita, numa longa reflexão. Aqui não, a música é coletivamente desconstruída, é como se nós, ouvintes, participássemos deste processo criativo. Tenho um palpite sobre o motivo de o CD ter agradado tanto aos críticos europeus e norte-americanos: a riqueza rítmica é extraordinária. E a opção por várias faixas menores, em vez de longuíssimos improvisos que não conseguem manter o interesse o tempo todo. As músicas improvisadas acima do Equador trabalham mais com cores, timbres e harmonias do que com o ritmo. Quando lhes falta o pulso, soam eruditamente contemporâneas. Nesse sentido se aparentam mais ao passado, enquanto The Principle of Intrusive Relationships soa novo, inesperado. Grande, merecido prêmio. Mazurek, Takara, Granado, Ribeiro, Miguel Barella e outro europeu emigrado, Thomas Rorer, costumam tocar em São Paulo. Semanas atrás, eles tocaram na Livraria da Esquina, na Barra Funda, no Café Elétrico, no Pacaembu, e no Casases, na Pompeia. Pouca gente soube, poucos assistiram. Quem quiser comprar o CD ou aventurar-se pela música atualíssima desses músicos premiados internacionalmente pode acessar: www.mtakara.com, www.robmazurek.com ou www.thewire.co.UK.

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