EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO
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São Paulo Cia. de Dança faz residência no MAM

Mostra 'Museu Dançante' abriga bailarinos durante dois meses no museu, no Parque do Ibirapuera, para criação de duas coreografias

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

27 Janeiro 2015 | 03h00

Prestes a inaugurar a primeira exposição do ano no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), o curador Felipe Chaimovich contou, em entrevista ao Estado, que enfrentou novidades das mais diversas dimensões para realizar o projeto. “Tive de ver até um produto diferente para encerar o piso do museu”, disse, frisando o cuidado para que o chão não se tornasse escorregadio. Isso porque a casa recebe, de hoje até 20 de março, parte do elenco da São Paulo Cia. de Dança (SPCD) para a mostra Museu Dançante.

A ideia é nova por aqui, mas vem de uma tendência internacional, relativamente antiga. Foi em 2007 que a exposição Documenta, que movimenta a cidade alemã de Kassel a cada cinco anos, teve a participação da Trisha Brown Dance Company. Na ocasião, o grupo fez uma série de apresentações nas quais se colocava como uma obra, dentro da Documenta. “Era uma coisa estranha”, diz Chaimovich, que esteve na mostra. “A dança não tinha lugar, ficava como um apêndice, não juntava com a exposição.”

Nos anos seguintes, o curador acompanhou os desdobramentos da experiência, que gerou outros casamentos entre dança e artes plásticas em locais como o Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, a Tate Modern, em Londres e o Palácio de Versalhes, em Paris. “Era sempre essa sensação de distância, a dança inacessível ao público. Funcionava quase como um zoológico, não existia relação concreta com o fluxo de visitantes ou com a vida da instituição.”

Chaimovich resolveu, então, aderir à tendência, mas ampliando a conversa entre as artes. Em duas etapas, o Museu Dançante recebe dois coreógrafos que já trabalharam com a SPCD e foram selecionados pela diretora artística da companhia, Inês Bogéa. Clébio Oliveira comanda 13 bailarinos na criação de uma peça, em encontros que ocorrem três vezes por semana até meados de fevereiro. Depois, é Rafael Gomes quem trabalha com outros 15 bailarinos em dois encontros semanais até o fim da exposição.

A SPCD pode usar toda a área do museu, mas deve se concentrar na sala Paulo Figueiredo, que tem espaço e estrutura ideais para a criação de coreografias. O local é aberto ao público, que pode conferir o trabalho dos bailarinos (o grupo de Oliveira ensaia às terças, quintas e sábados, das 10h às 17h, até 7 de fevereiro) e, em horários ociosos, assistir à série de documentários Figuras da Dança, com produção da companhia. As apresentações dos espetáculos criados na residência ocorrem aos domingos, às 11h e às 15h.

A Grande Sala comporta as obras do acervo do museu – de artistas como Hélio Oiticica e Mira Schendel –, selecionadas por Chaimovich com base em três temas relacionados aos princípios da coreografia: gravidade, desequilíbrio e flutuação. Os bailarinos vão circular pelo local para dialogar com as obras, ter ideias e absorvê-las no processo coreográfico. A sala tem espaços vazios, calculados para comportar as atividades do educativo do museu e incentivar os visitantes que queiram arriscar alguns passos de dança.

O corredor que liga os dois ambientes recebe, semestralmente, o Projeto Parede, com obras que ocupam, como sugere o nome, a parede da passagem. Coincidentemente, o ano abre com Círios, de Wagner Malta Tavares: uma sequência de lâmpadas que se apagam à medida que alguém se aproxima do local. Dessa forma, o movimento do público e dos bailarinos causa, também, um efeito luminoso no corredor.

A sinergia entre dança e arte visual parece ter começado antes mesmo do início da mostra. Sem ver a lista de obras selecionadas, Oliveira quis abordar a gravidade e solicitou a construção de uma sala de estar suspensa na parede (vide foto acima). A ideia combina com a obra Sem Título (2010), em que Edgard de Souza pendura uma mesa na parede. “O bailarino lida com a gravidade o tempo todo, sempre fugindo ou brincando com essa força natural”, diz o coreógrafo, afirmando que se inspirou em uma cena do filme A Origem (2010), de Christopher Nolan, em que uma cidade entra em um plano vertical.

Mudança de hábito. Além da tendência internacional, uma pesquisa acadêmica de Chaimovich influenciou na criação da mostra. Segundo o curador, no século 19 o balé se torna uma disciplina de repressão do corpo, tendo como reação, anos depois, o surgimento da dança contemporânea, que preza pela liberdade. O museu, por sua vez, era um local de treinamento do corpo reprimido – quando se vai a uma exposição, deve-se ficar calado, com braços para trás, sem tocar em nada. “Queremos transcender esse modelo para que as pessoas não se sintam reprimidas ao entrarem no museu”, diz Chaimovich. 

MUSEU DANÇANTE

MAM. Parque do Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 3. 3ª a dom., 10h/18h (entrada até 17h30). R$ 6 (grátis aos doms.). Até 20/3.

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