São Bernardo, o filme clássico sobre a cobiça

Romance de Graciliano Ramos, adaptado por Leon Hirszman, sai agora em DVD

, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Também Leon Hirszman (1937-1987), ao enfrentar o texto de Graciliano Ramos, o fez da maneira a mais sóbria possível. E, ao optar por um despojamento formal que o aproximasse da obra original, produziu uma obra-prima, São Bernardo. O título designa uma fazenda, as "terras de S. Bernardo", objeto do desejo do narrador, um certo Paulo Honório. Logo no início, ouve-se a voz em off de Othon Bastos, que interpreta o personagem, dizendo que iria colocar a história de sua vida no papel, para assim dar-lhe ordem, ainda que avance aos saltos ou às vezes às cegas. Não importa: "Na opinião dos caboclos que me servem, todo caminho dá na venda." Serão essas as imagens iniciais e finais desse grande filme - Paulo Honório em sua escrivaninha. O filme foi restaurado a partir do negativo original e agora é lançado em DVD pela Videofilmes (preço recomendado R$ 55). Além do filme em si, vários extras com depoimentos de quem participou da obra como o fotógrafo Lauro Escorel, o montador Eduardo Escorel, o ator Othon Bastos, entre outros. Também fazem parte doDVD outras obras de Leon: o documentário Maioria Absoluta e a série formada por Cantos de Trabalho. São Bernardo, por vezes, incorpora essa vertente documental do diretor. Algo que resta da proposta de prospecção do Brasil profundo, e seduzia os jovens diretores do Cinema Novo, invade a ficção. Descobrir um Brasil que ninguém via, interpretá-lo e mostrar sua cara real em filmes de caráter revolucionário, na forma e no conteúdo. Graciliano Ramos, pela alta qualidade literária do seu texto, e pelo tom político dos seus romances, prestava-se como poucos a essa redescoberta da realidade brasileira. E pode-se dizer que Graciliano teve sorte com as adaptações que sua obra ganhou para o cinema: Vidas Secas e Memórias do Cárcere por Nelson Pereira dos Santos, São Bernardo por Hirszman. Três grandes filmes, vibrantes e significativos até hoje. São Bernardo é de 1971-72, em plena vigência do AI-5 e portanto da fase mais feroz da censura às artes no País. O filme ficou retido por sete meses na censura e esta não se enganava ao desconfiar da obra, pois tanto o livro como o filme são libelos poderosos contra a desumanização do capitalismo. Graciliano era escritor comunista e ficou preso na Ilha Grande durante o governo Vargas, "experiência" que lhe deu material para Memórias do Cárcere, filmado por Nelson em 1984, em pleno período da abertura política. Já Leon era artista de formação marxista, que procurava, em sua obra, aplicar a dialética com todo o rigor formal. Uma espécie de processo de acumulação primitiva em âmbito pessoal é que se descreve em São Bernardo. E, principalmente, aquilo que Marx chamava de "poder de corrosão do dinheiro". Não por acaso, os primeiros planos do filme se colocam sobre a imagem de uma cédula antiga, daquelas ainda fabricadas em Nova York. Depois da abertura, Paulo Honório segue contando sua vida. Como trabalho no eito e deu duro como mascate, juntou dinheiro e finalmente conseguiu aplicar um golpe em Padilha (Nildo Parente) e apoderar-se de São Bernardo. Rico, e tratando seus empregado de modo brutal, sente necessidade de perpetuar o capital acumulado através de um filho. Precisa de uma mulher, Madalena (Isabel Ribeiro), para esse fim. Como reina sobre coisas e pessoas, Paulo Honório procurará reinar sobre a mulher. Para desgraça de ambos. São Bernardo é um drama da cobiça e Paulo Honório, ao mesmo tempo, seu agente e vítima.

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