Santos, o contraste entre o histórico e o moderno visto do alto

No livro, organizado por Juan Esteves com fotos de Ernesto Papa, cidade divide-se entre a tradição e sua vocação futurista

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

03 de dezembro de 2008 | 00h00

Santos vista do alto revela-se aos turistas e aos próprios moradores uma cidade dividida entre as tradições do passado e sua vocação futurista. As grandes torres que começam a ser construídas na orla da praia contrastam violentamente com os prédios históricos do seu centro, mais bonitos e menos agressivos à paisagem. É esse contraste entre o antigo e o contemporâneo a marca do livro Um Olhar Sobre a Cidade (Imprensa Oficial, 186 págs., R$ 90), que registra praticamente todos os lugares turísticos de Santos. Ele foi produzido para marcar os 462 anos de fundação da segunda cidade do Brasil pelo fotógrafo Ernesto Papa e o jornalista João Batista de Macedo Mendes Neto com concepção gráfica e editorial de outro fotógrafo, Juan Esteves. Tem 160 fotografias que traduzem a evolução urbana e econômica do maior porto brasileiro e também maior jardim urbano do mundo, mais de 6 quilômetros de verde à beira-mar.A busca de ângulos em geral inacessíveis tanto ao turista como ao morador não segue apenas uma proposta estética. Papa procurou, sim, fotografar Santos apenas em dias ensolarados, mas isso tem mais a ver com seu objetivo de destacar o traçado arquitetônico dos prédios que produzir cartões-postais da cidade. Apenas como exemplo, o desenho da calçada da Praça da Independência, no centro do bairro do Gonzaga, era até agora visto apenas por quem mora nos prédios que circundam a estátua do Patriarca da Independência, José Bonifácio. Também a fortaleza da Barra Grande, construída pelo espanhóis em 1584, era só parcialmente vista por quem navega pela entrada da barra ou circula pelo calçadão da Ponta da Praia, próximo ao Aquário. As fotos aéreas de Papa mostram tanto a praça como o forte de um ângulo original.Os detalhes arquitetônicos dos prédios antigos do centro da cidade são privilegiados na edição - e essa não é exclusivamente uma decisão formal. Quando se vê a fachada restaurada com 7 mil azulejos portugueses da Casa da Frontaria Azulejada, na Rua do Comércio, revela-se em andamento o projeto de recuperação do Centro, que já restaurou o Teatro Coliseu, construído em 1921, e agora resgata outros prédios históricos, como o Teatro Guarany. O Centro aos poucos recupera seu aspecto original, bastante modificado pela alteração de suas fachadas e pelo precário estado dos prédios. Como resultado dessa ação preservacionista, os turistas começam a ser atraídos para a região central graças também ao centenário bonde turístico que cumpre hoje um itinerário de quase 2 quilômetros em torno de edifícios públicos como a Bolsa de Café, a antiga estação de trem São Paulo Railway, de 1867, e a Igreja do Valongo, um dos prédios mais antigos, de 1640.As fotos de Papa são belos registros desses locais históricos, mas suas lentes captam igualmente as transformações da cidade, que aposta no turismo com um projeto ambicioso de uma marina para transatlânticos e embarcações de luxo no cais do Valongo, no Centro, próximo ao local onde será construído o Museu Pelé. No prédio em ruínas funcionou, até 1939, a antiga Prefeitura e Câmara de Santos. E é justamente com seu centro que Santos revela ser sua face menos conhecida: a de ser a mais portuguesa das cidades brasileiras. Não por outra razão, Santos ganhou da cidade do Porto um bonde turístico cuja imagem aparece no livro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.