Sangue e suor como moeda de troca no ''resto do mundo''

Número 73 da revista Colors viaja e descobre como os ''sem-dinheiro'' pagam credores com o próprio corpo

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2008 | 00h00

O dinheiro pode fazer o mundo girar, como dizia a saliente cantora Sally Bowles, do musical Cabaret, mas por vezes faz rodar seus habitantes, como em Bagdá, onde muita gente enfrenta crises de hipoglicemia ao vender sangue no mercado negro. Esse é um dos muitos meios que o ''resto do mundo'' encontrou para sobreviver e pagar as contas da globalização. O número 73 da revista Colors (R$ 29,90, nas bancas a partir de abril), publicada pela Fabrica - o centro de criação artística da Benetton na Itália-, fala justamente dessas formas de ganhar dinheiro nos países fora do eixo do dólar e do euro. O Brasil está incluído: uma moradora de Curitiba, com nome de tragédia grega, Efigênia, trocou o emprego pelo lixão, de onde tira o dinheiro para comprar comida e bilhetes de ônibus. Ela faz parte do programa instituído pelo governo curitibano há duas décadas, que fornece vales em troca de lixo reciclado e classificado.Entre o sangue de Bagdá e a sucata de Curitiba existe uma gama infinita de modalidades desse ''alternativo'' mercado financeiro, em que a moeda de troca pode ser tanto cocaína como cinzas ou pele, bem diferente, portanto, do dinheiro do Primeiro Mundo. No Azerbaijão, por exemplo, as pessoas não vão ao banco. Elas mantêm uma poupança na própria boca. A Colors fotografou vários tipos caucasianos com dentes de ouro incrustados, que funcionam como carta de fiança para dívidas contraídas por azeris. No Azerbaijão pós-União Soviética, é possível conseguir uma licença para dirigir táxi apenas mostrando os dentes, mas ai do infeliz que deixar de pagar sua dívida.Já na pequena Ithaca, Estado de Nova York, costa leste dos EUA, martelaram tanto a cabeça dos habitantes com a idéia de que tempo é dinheiro que eles acabaram criando um moeda original, batizada com o nome da mítica ilha grega onde nasceu Odisseu. Uma nota de 1 ithaca (equivalente a uma hora) vale US$ 10. Assim, um rabino pode preparar crianças para o Bar Mitzvah em troca do conserto de seu violino e negociar a transação em notas/horas, dando o troco para os garotos cortarem a grama do jardim. O conhecido economista Bernard Lietaer, especialista em sistema monetário, considera que está aí uma idéia que aponta para o futuro do dinheiro. ''Creio que uma comunidade é mais próspera e tem um controle maior sobre seu destino, além de uma melhor qualidade de vida, quanto institui uma moeda com valor acordado'', declara Lietaer na última Colors.No caso da Colômbia, mais especificamente no sul do país, a moeda de troca é a cocaína. Pode-se, segundo os repórteres da revista, ir ao supermercado ou apostar na luta de galos com algumas gramas do pó da ilícita droga. Lá praticamente a cocaína paga tudo, das despesas no armazém a exames médicos. As zonas de cultivo caíram 29% entre os anos 2000 e 2006, e mais ou menos 40% da produção é interceptada no mundo. Mesmo assim, os colombianos do sul continuam usando o pó como moeda corrente.Outra moeda em alta é o petrodólar. Quando a ex-URSS deixou de ajudar financeiramente Cuba, os petrodólares da Venezuela começaram a jorrar a ponto de fazer uma médica de Havana abandonar o filho e o marido para operar cataratas em Caracas. A revista acompanha outros casos de doutores cubanos instalados em hospitais venezuelanos, todos recebendo em petrodólares. Isso enquanto a festa durar. As reservas apontam 83 bilhões de barris na Arábia Saudita, 72 bilhões no Kuwait e algo em torno de 32 bilhões na Venezuela.Para quem morrer antes desse poço secar, é bom contar com outro tipo de moeda: o dinheiro amarelo de uma província chinesa onde os mortos, já indiferentes aos apelos da Bolsa de Valores, recebem dos vizinhos e parentes montanhas de papel com uma moeda de cobre estampada: ela servirá para pagar os custos da viagem para a eternidade. Lá, cartões de crédito não são bem aceitos.

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