Sandrine Bonnaire revê seu álbum de família

Atriz estreia na direção com O Nome Dela É Sabine, que relata o drama de sua irmã e recebeu prêmio da crítica em Cannes

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

Embora realizado há dois anos, é curioso que O Nome Dela É Sabine só agora esteja sendo lançado no Brasil. O belo documentário assinala a estreia da atriz Sandrine Bonnaire na direção e a curiosidade decorre do fato de que, também ontem, estreou outro documentário, de outra atriz que também estreia atrás das câmeras. Waldick Soriano - Sempre no Meu Coração (edição de ontem do Estado), Patricia Pillar revelou que há tempos vinha amadurecendo a ideia de se tornar realizadora, mas a surpresa, até para ela, foi a estreia com um documentário e não ficção. Sandrine Bonnaire declarou, numa entrevista na França, que não tinha escolha. O formato documentário era o que lhe interessava desde o início.Trailer de ''O Nome Dela é Sabine'' Durante anos, Sandrine, de 42 anos, registrou em filmes domésticos o cotidiano de sua irmã. Sabine é autista. Mas ela nem sempre foi assim. Sabine, um ano mais nova do que Sandrine, teve o que se chamaria de infância ?normal?, como a de qualquer outra criança. Aprendeu a ler, escrever, a tocar piano. Sandrine chega a dizer que a irmã era mais bela e talentosa do que ela. Tudo mudou há 13 anos, quando o irmão mais velho de ambas morreu. Sabine surtou, tornou-se agressiva. Sem condições de tratá-la em casa, a família internou-a no que parecia um hospital psiquiátrico confiável. Apesar das tentativas de estímulo, Sabine foi regredindo, até se isolar em seu mundo.Num registro intimista - bem mais intimista -, O Nome Dela É Sabine terminou produzindo, na França, efeito semelhante ao de filmes de recortes mais sociais, como Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, e Bem-Vindo, de Philippe Liorert, que chegou a mudar a lei francesa que proibia os cidadãos de darem ajuda, mesmo humanitária, a imigrantes ilegais. Sandrine participou de inúmeros debates públicos. Seu filme colocou em xeque não apenas o sistema hospitalar, mas os próprios métodos de avaliação e tratamento das doenças mentais.Em tom confessional, a diretora não apenas aponta o dedo acusador. Também expõe as dificuldades para se tratar de uma pessoa tão próxima e inconstante. O relato vira confessional, na primeira pessoa, e esta é uma tendência muito rica do documentário atual. Nascida em Clermond Ferrand, em 1967, Sandrine Bonnaire encarnou na tela a heroína problemática de um filme que se tornou cult. À Nos Amours, de 1983, fez dela a garota (Suzanne) que faz sexo com diversos rapazes de sua idade, mas é incapaz de experimentar afeto por qualquer um deles (ou por si própria). Com seu realismo à flor da pele, Maurice Pialat fez de À Nos Amours o registro de um mal-estar geracional. Como ele gostava de dizer - e Sandrine até hoje acredita na frase -, "o cinema é a verdade do momento que se está filmando."Depois disso, ela filmou com Agnès Varda, Claude Chabrol e Patrice Leconte, entre outros diretores importantes da França. Foram papéis marcantes em filmes como Os Desajustados (Sans Loi ni Toit), Mulheres Diabólicas (La Cérémonie) e Confidências Muito Íntimas. Sem medo de ousar, Sandrine viveu analfabetas, mulheres sedutoras, assassinas. Mas ela confessa que nenhum desafio foi tão grande quanto o de realizar O Nome Dela É Sabine. Por meio da irmã, Sandrine se expõe como nunca. E o filme retoma a lição de Pialat, não como chave de ficção, mas documentário. Sandrine busca captar - expressar - a verdade do momento.Alguns dos maiores documentários recentes - Santiago, de João Moreira Salles, e Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho - constroem-se nas bordas do real e do ficcional, eliminando fronteiras. O Nome Dela É Sabine não escapa a essa tendência. Sabine é o objeto - o sujeito - de afeto e de estudo de Sandrine Bonnaire. Mas, falando da irmã, ela se revela. O filme possui camadas - crítica social, informação médica, proposição estética. Tudo isso é muito rico, mas acima de tudo talvez prevaleça seu aspecto humano. As cenas da viagem de Sabine aos EUA confrontam o espectador com imagens de um tempo (felicidade?) perdido. Não admira que obra tão densa (e dura) tenha recebido um prêmio da crítica em Cannes, em 2007.ServiçoO Nome Dela É Sabine (Elle S?Appelle Sabine, França/ 2007, 85 min.) - Documentário. Dir. Sandrine Bonaire. Livre. Cotação: Bom

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.