FELIPE RAU|ESTADÃO
FELIPE RAU|ESTADÃO

Sandra Cinto exibe suas paisagens de água

Artista realiza a exposição inaugural do novo edifício da Casa Triângulo nos Jardins, em São Paulo

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

05 Março 2016 | 04h00

O acaso do movimento da água e a necessidade da ação do desenho. Nas mais recentes obras de Sandra Cinto, criadas para a exposição que inaugura neste sábado, 5, o novo espaço da galeria Casa Triângulo nos Jardins, em São Paulo, o azul de pigmentos diluídos em água escorre por duas grandes telas de 7,5 metros e de suas manchas se formam paisagens monumentais também pela construção que a artista faz com pequeninos traços pretos riscados nas composições. A contemplação desses trabalhos conduz o observador a uma espécie de lugar onírico, mas a mostra Acaso e Necessidade é, na verdade, um campo de dualidades.

“O estado de beleza criado por Sandra Cinto camufla o enigma da arte que seus trabalhos carregam, baseando-se numa série de ambiguidades, deslocamentos e tensões”, escreve o cientista social e colecionador Miguel Chaia no belo texto que acompanha a exposição. Numa primeira vista, de fato, o azul-claro é pura leveza, mas as paisagens da artista também parecem representar penhascos, abismos. “Quando estamos diante da natureza, a gente percebe quanto não somos nada e tudo ao mesmo tempo”, ela diz – e o título da mostra refere-se a uma maneira budista de pensar a vida: “O acaso é o que você não controla e a necessidade, o que conseguimos organizar”, explica.

Em 2010, Sandra Cinto exibiu a representação de um grande horizonte marítimo de faixas de gradações de azul e traços feitos com canetas permanentes à base de óleo em tonalidades de prata que, na ocasião, era o destaque de sua individual Imitação da Água, no Instituto Tomie Ohtake. Agora, na Casa Triângulo, não há imitação, mas água mesmo, que, misturada a pigmentos de aquarela e de tinta acrílica, é derramada, literalmente, nas telas para a artista criar esses trabalhos inéditos.

Na verdade, Sandra Cinto chegou a essa técnica no Japão, onde realizou, no ano passado, uma residência artística no Aomori Art Center, na cidade homônima localizada no norte do país. “Descobri por acaso que Aomori significa ‘floresta azul’, pois é nessa região que se cultiva a planta índigo, da qual se origina o azul do índigo”, conta. Mais ainda, a artista teve contato com o shibori, prática tradicional japonesa de tingimento. Outro fator importante foi a escolha do papel japonês, rico em fibras, “quase um tecido”, que a levou a experimentar o uso da água em suas obras.

Primeiramente, Sandra Cinto fez “instantes de paisagens” sobre esse suporte, derramando o azul líquido, que flui rapidamente sobre o papel e, depois, desenhando rochas e penhascos com traços pretos (a “persistência do desenho”). Seis dessas criações estão em Acaso e Necessidade. Entretanto, quando o galerista Ricardo Trevisan convidou a artista para a mostra inaugural da Casa Triângulo nos Jardins, depois de a galeria deixar seu antigo endereço, no Itaim – afinal, são 25 anos de parceria e amizade entre os dois, Sandra Cinto lançou-se ao desafio de realizar as grandes pinturas.

“Queria que a arquitetura viesse junto com a exposição”, diz a criadora, referindo-se ao projeto da Metro Arquitetos Associados para os 450 m² da galeria. A grande sala branca e iluminada exibe, além das telas, a peça A Ponte, obra escultórica de madeira que, tendo em suas duas extremidades, respectivamente, um cavalinho e uma cadeira de balanço, fala da jornada da vida, da infância à velhice.

SANDRA CINTO - ACASO E NECESSIDADE

Casa Triângulo. Rua Estados Unidos, 1.324, tel. 3167-5621. 2ª a sáb., 10h/19h. Até 2/4. Abertura no sáb., 5, das 12h às 19h

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