Sambinha com jeito de bossa nova

Paula Morelenbaum resgata canções do período anterior ao movimento musical

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

16 de setembro de 2008 | 00h00

"Um cantinho e você/ Uma rede e o luar/ Uma vela a correr/ Num pedaço de mar." Esta não é uma canção de bossa nova, mas bem que poderia ser. Composta por José Maria de Abreu e Jair Amorim (a dupla de Alguém Como Tu) em 1948 - uma década antes, portanto, da primeira gravação do violão de João Gilberto, no disco Canção de Amor Demais, de Elizeth Cardoso, com composições de Tom e Vinicius -, Um Cantinho e Você foi uma das belas músicas dos anos 30, 40, 50 e início dos 60 que Paula Morelenbaum resgatou para seu CD Telecoteco - Um Sambinha Cheio de Bossa (Universal). O lançamento será de quinta a sábado no Tom Jazz."Para mim, essa é a primeira canção de bossa nova que existiu. Um cantinho, uma rede, o mar, nada pode ser mais bossa nova que isso", diz Paula, que considera uma "coincidência engraçada" o fato de estar lançando um disco não-bossa-novista justamente neste ano do cinqüentenário, em que sobram projetos dedicados a homenagear seus compositores e intérpretes. "Não foi de propósito, não é uma estratégia de marketing!", brinca a cantora, lembrando que a previsão era que o CD saísse no ano passado.Que ninguém pense que ela está renegando o gênero que vem cantando há tantos anos - trabalhou com Tom de 1984 até sua morte, em 1994, e participou de discos importantes como Passarim, Antonio Brasileiro, Tom Jobim Inédito e Tom Canta Vinicius (os dois últimos, póstumos). Desde então, vem revisitando a obra em seus trabalhos. "Não estou negando nada. As músicas mais lindas que conheço são do Tom", declara-se.Quando pensou no CD que faria na seqüência de Berimbaum (2004), com novas roupagens para clássicos de Vinicius, teve a idéia de pesquisar o período pré-bossa nova, e modernizar canções que fizeram a cabeça dos músicos e letristas então. Com a ajuda de um historiador e depois de ouvir muitos LPs antigos, chegou às 12 faixas.Há algumas já bem conhecidas, como Manhã de Carnaval (1959), de Luiz Bonfá e Antonio Maria, Love Is Here do Stay (1938), dos irmãos Gershwin, Ilusão à Toa (1961), de Johnny Alf, e Você Não Sabe Amar (1950), de Dorival Caymmi, Carlos Guinle e Hugo Lima.Outras são praticamente desconhecidas do ouvinte de hoje, como Não Me Diga Adeus (1947), de Luiz Soberano, Paquito e João Correa da Silva, gravada por Aracy de Almeida, Luar e Batucada (1957), um Tom e Newton Mendonça bem diferente de Desafinado e Meditação, encomendada por Marlene. Sei Lá Se Tá (1940), de Alcyr Pires Vermelho e Walfrido Silva, nem o historiador conhecia. A letra de Ternura Antiga (1960) é de Dolores Duran, e foi musicada após sua morte pelo pianista J. Ribamar, tendo sido gravada por Tito Madi.Um Cantinho e Você foi registrada por Dick Farney.Telecoteco (1942) é de Murilo Caldas e Marino Pinto, um compositor do qual, Paula se lembra, Tom gostava muito. O Samba e o Tango (1937) fazia parte do repertório de Carmen Miranda (homenageada por Paula em 94, com o show Chica-Chica-Boom-Chic, aliás) e já foi cantada por Caetano Veloso. A letra diz: "Eu canto e danço, sempre que possa/ um sambinha cheio de bossa."A palavra "bossa" aparece também em O Que Vier Eu Traço, sucesso de Ademilde Fonseca de 1945: "Quando eu canto meu sambinha batucada/ A turma fica abismada com a bossa que eu faço." Como diz Eucanaã Ferraz no texto que acompanha o CD, trata-se de "um conjunto de sinais, anúncios do gênero que sintentizaria todo o processo de modernização por que passava a música popular".Todas as canções ganharam arranjos novíssimos, com programações bem interessantes - o que Paula já havia feito em Berimbaum. "Berimbaum ficou mais eletrônico; desta vez, foi mais sutil. Meu desejo é que não haja estranhamento. Mas o tempo passou", explica Paula, que chamou convidados como João Donato, Marcos Valle, o japonês Ryuichi Sakamoto, seu parceiro há anos, o marido, o violoncelista Jaques Morelenbaum, e o grupo Bajofondo, formado por uruguaios e argentinos. ServiçoPaula Morelenbaum. Tom Jazz (200 lug.). Av. Angélica, 2.331, Higienópolis, 3255-3635. 5.ª a sáb., 22 h. R$40

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