Roth, em casa com os exilados

Escritor narra encontro com autores que têm em comum elo com o universo perdido da Europa Central

Entrevista com

Luis S. Krausz, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

Entre Nós, do norte-americano Philip Roth, traz relatos de conversas do escritor com colegas de ofício realizadas nos anos 1980, nos Estados Unidos, na Europa e em Israel, bem como alguns trechos de sua correspondência com Mary McCarthy; comentários sobre a obra de Saul Bellow e o relato de um encontro com o pintor Philip Guston, em Woodstock. Despretensioso, bem informado e, sobretudo, despido daquela pomposidade que normalmente rodeia, como um manto de pretensão, as ideias preconcebidas, Roth mostra-se um interlocutor sincero e bem-humorado que aborda, com seus colegas, pontos de convergência de seus interesses, de suas vidas, de suas obras. E esses pontos de convergência, não por acaso, são os nós e as tramas centrais do tecido literário do Ocidente no século 20.Um dos temas que perpassam o livro quase como um todo é o legado incontornável da Mitteleuropa, ou Europa Central - aquele território de convívio e de trânsito entre culturas, no fim da Monarquia Habsburga, que foi o fulcro da Europa até 1918, e que continuou a influenciar profundamente as letras e o pensamento europeus até pelo menos 1939 - ou mesmo 1989, ano em que se romperam as fronteiras que, em 1945, repartiram essa Mitteleuropa em suas metades ocidental e oriental.Não por acaso, quase todos os interlocutores de Roth estão profundamente ligados a essa região e a seu legado - desde o escritor de língua iídiche Isaac Bashevis Singer, com quem Roth dialoga a respeito de Bruno Schulz, (talvez o mais emblemático autor do declínio desse universo espiritual, cuja obra expressa a decadência daquela singular confluência entre as culturas judaica, austro-germânica e polonesa) até os dois checos, Ivan Klima e Milan Kundera, com quem Roth conversa às vésperas do fim do comunismo, e que vivem, ainda, numa espécie de ilha ou redoma, em que a literatura e a cultura ainda não passaram pelo banalizador "choque de realidade" que significa o encontro com as forças inexoráveis do mercado.Klima afirma: "Quando olho para trás e vejo minha cidade natal, a Praga do início do século (20), fico abismado com a mistura maravilhosa de culturas e costumes, com os inúmeros grandes homens da cidade. Kafka, Rilke, Hasek, Werfel, Einstein, Dvorak, Max Brod..." E Kundera, com quem Roth conversou em seu exílio francês, diz: "Foi ali, na Europa Central, que a cultura moderna encontrou seus impulsos mais fortes: psicanálise, estruturalismo, dodecafonismo, a nova estética do romance de Kafka e Musil. Quando, no pós-guerra, a civilização russa anexou a Europa Central, a cultura ocidental perdeu seu centro de gravidade vital. Foi esse o evento mais importante na história do Ocidente em nosso século (...) o fim da Europa Central (foi) o princípio do fim da Europa como um todo."Também Primo Levi, que Roth foi visitar na fábrica de tintas onde o químico-escritor fez sua carreira, em meio à "geometria obsessiva" de Turim, encontra-se enredado nessa teia centro-europeia - de um lado, por sua ligação com Franz Kafka, de quem Levi foi tradutor; de outro, por sua própria trajetória literária, que tem como ponto de partida a experiência como prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz, este também um dos emblemas do brutal desmembramento do ecúmeno de diálogo e de convívio com a diferença que foi a Mitteleuropa antes do advento do nazismo.Assim, os escritores que Roth busca pelo mundo são como estilhaços, espalhados e exilados, da grande explosão que representou a 2ª Guerra Mundial - e talvez nenhum deles represente melhor essa condição, bem como a tenacidade de seu legado, do que Aharon Appelfeld, com quem Roth se encontra em Israel. Appelfeld nasceu em Czernowitz, que fora a capital da Bucovina habsburga - e, a partir do século 19, um posto avançado da cultura austro-germânica no Leste - numa família judaica aculturada, germanizada, que como tantas outras deixara dá lado o legado espiritual e religioso dos ancestrais para buscar a integração nos novos tempos, representada pela língua e pela cultura alemãs. Nas palavras do escritor, "o alemão era considerado não apenas uma língua, mas também uma cultura e a atitude em relação à cultura alemã era quase religiosa".Quando ele tinha 8 anos, foi deportado para um campo de concentração com seus familiares. Mas conseguiu fugir e sobreviveu à guerra vagando por florestas, escondendo-se em casas de camponeses. Emigrou para a Palestina britânica, onde aprendeu o hebraico, e tornou-se um dos maiores escritores de língua hebraica de Israel.Mas o tema central de sua literatura é, sempre, esse mundo peculiar que desapareceu com sua infância - o mundo dos judeus aculturados de língua alemã da Europa Central, cujo fascínio organiza, como um sol, sua obra como um todo. "Sempre adorei os judeus assimilados, porque era neles que o caráter judaico, e também talvez o destino judaico, estava concentrado com mais força", diz.O exílio, portanto, é outro tema ubíquo nas conversas e lembranças reunidas nesse volume - e é do ponto de vista do exílio que Roth dialoga com Edna O?Brien, irlandesa radicada em Londres, longe das pastagens verdejantes e das casas de pedra de sua infância.Roth narra, ainda, encontros com Bernard Malamud e comenta a obra de Saul Bellow. As particularidades que ele tão atentamente registra, nas palavras tanto quanto nos gestos, nas atitudes e na aparência de seus interlocutores, adquirem caráter universal. Além de registrar conversas, assim, o que ele faz, aqui, é pura literatura. Luis S. Krausz, doutor em Literatura e Cultura Judaica pela USP, é autor de Rituais Crepusculares: Joseph Roth e a Nostalgia Austro-Judaica (Edusp)

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