Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

Rosana Paulino mostra a cor do trauma do racismo

'Costura da Memória', exposição da artista paulistana na Pinacoteca, reúne gravuras, desenhos, esculturas e instalações que tratam das consequências da escravidão no Brasil

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

08 Dezembro 2018 | 17h00

Rosana Paulino, uma artista hoje internacionalmente reconhecida, com obras no acervo de museus estrangeiros e exposições em vários países europeus e africanos, lutou muito para conquistar esse espaço e comemorar 25 anos de carreira com uma retrospectiva na Pinacoteca do Estado, aberta hoje (8). Nascida numa família sem posses, cresceu observando a mãe bordadeira, brincando com bonecas loiras de braços e pernas decepados que ganhava de presente de famílias brancas e contando histórias bíblicas para a avó, que não sabia ler. Sua produção artística reflete essa história pessoal, que representa também a história social do negro no Brasil. É assim que Rosana Paulino: A Costura da Memória, que ocupa três salas do primeiro andar da Pinacoteca, evolui de uma exposição artística para mostra histórica. Tudo nela é rigorosamente verdadeiro, partindo da experiência da artista paulistana para uma abordagem artística e política das marcas deixadas pela escravidão.

A mostra, com curadoria de Valéria Piccoli e Pedro Nery, tem 140 obras produzidas entre 1993 e 2018, de desenhos e gravuras até esculturas e instalações, todas elas tratando criticamente da chamada “democracia racial” brasileira. Já na primeira sala destacam-se duas obras conhecidas de Rosana Paulino, Parede da Memória, instalação de 1994, e Bastidores (1997). Em ambos os casos, a violência do colonizador branco e a supressão da identidade dos afrodescendentes colocam o espectador diante do silêncio imposto ao negro por uma sociedade intolerante, legado da colonização portuguesa.

No ano passado, aliás, disposto a uma autocrítica, Portugal importou uma exposição da artista, Atlântico Vermelho, sobre as consequências do expansionismo europeu que resultou no genocídio de sociedades ameríndias e no tráfico negreiro entre a África e as Américas. Rosana, doutora em artes pela ECA/USP e formada em gravura pelo London Print Studio, esteve nessa e outras exposições internacionais para falar de sua experiência e de obras que estão agora na retrospectiva da Pinacoteca. “Mesmo lá são os mais velhos que ainda discutem essa questão racial”, observa, revelando que o curador da mostra portuguesa, Antonio Pinto Ribeiro, professor da Universidade de Coimbra com 62 anos, filho de um militar, focava nos “miúdos” (crianças) ao organizar a exposição lisboeta.

“Rosana toma o problema do racismo para si”, diz o curador de sua retrospectiva Pedro Nery, apontando as serigrafias da instalação Parede da Memória, que reproduz figuras do álbum familiar da artista (11 imagens que se desdobram em 1.500 peças) com seres humilhados por uma elite obcecada em “branquear” o País. O desprezo vil pelo negro é também representado em séries como Bastidores, que usa bastidores de bordado com imagens de negras costuradas nos olhos e na boca.

Mesmo que os negros hoje frequentem universidades, o apartheid social continua existindo, defende Rosana. “A reação a essa conquista da escolaridade aparece agora quando se vê pichações como ‘voltem para a senzala’ nas paredes dessas mesmas universidades”, diz. “Voltamos, enfim, ao tempo do cientista suíço Louis Agassiz”, ironiza a artista. Em tempo: Agassiz veio ao Brasil em 1865 e concluiu que o negro era “inferior” e “incapaz de se civilizar”. Tristes trópicos.

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