Ronaldo das letras fatura R$ 200 mil

Ronaldo Correia de Brito brinca com o xará da bola ao ganhar Prêmio São Paulo

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

05 de agosto de 2009 | 00h00

"Finalmente, um Ronaldo conseguiu ganhar dinheiro no Brasil sem precisar jogar futebol", ironizava o escritor cearense Ronaldo Correia de Brito, na noite de segunda-feira, com um troféu em uma das mãos e um polpudo cheque na outra. Momentos antes, ele foi anunciado como autor do melhor livro do ano passado, Galiléia (Alfaguara), tornando-se o principal vencedor do 2º Prêmio São Paulo de Literatura. Trata-se do melhor incentivo das letras nacionais, pagando R$ 200 mil como prêmio. Na mesma cerimônia, realizada no Museu da Língua Portuguesa, o gaúcho Altair Martins foi eleito o autor estreante de 2008, com o romance A Parede no Escuro (Record), faturando também um troféu e a mesma quantia.Com uma coloração mais política que a premiação do ano passado - desta vez, o secretário de Estado da Cultura, João Sayad, não era o único membro do governo presente, pois ali também estavam o governador José Serra e o prefeito Gilberto Kassab -, o evento ganhou mais ares de mistério com a decisão de se anunciar previamente dez finalistas em cada categoria e não cinco, como no ano passado. "A nossa intenção é tornar o prêmio cada vez mais escandaloso", disse João Sayad, antes do anúncio dos ganhadores, provocando uma certa surpresa na plateia. "Quando digo ?escandaloso?, é no sentido de chamar atenção para os escritores e também para incentivar a leitura."O prêmio, de fato, cresceu em apenas um ano - dessa vez, foram 217 romances inscritos contra 146 em 2008. Também cresceu o número de editoras envolvidas, de 55 para 75. "É claro que o valor oferecido aumenta o interesse", comentou Correia de Brito que, em um primeiro momento, não sabia ainda como utilizar os R$ 200 mil. "Vou gastar em sushi", brincou. "Mas não importa apenas a quantia em si, mas a repercussão que ela provoca: por causa dela, mais autores vão se sentir motivados a escrever e mais editoras tendem a publicar. Finalmente, o vencedor conquista a chance de se dedicar um pouco mais à literatura."Realmente, foi o que aconteceu com o catarinense Cristóvão Tezza que, no ano passado, graças a O Filho Eterno (Record), ganhou os principais prêmios literários do País, totalizando R$ 330 mil, incluídos os R$ 200 mil do São Paulo de Literatura. "Com isso, nós nos aproximamos dos escritores profissionais dos países mais ricos", completou Correia de Brito.O valor também foi comentado por Altair Martins, de 34 anos, que, depois de várias passagens pelo conto, chegou ao primeiro romance com A Parede no Escuro. "Espero, além de quitar a minha casa, poder diminuir minha carga horária como professor universitário", disse ele, que dá aulas de manhã à noite, na Federal do Rio Grande do Sul. A permanência de Martins no ambiente universitário, porém, não deverá diminuir. Pois foi durante a preparação de sua tese de mestrado que ele escreveu A Parede no Escuro. "Eu comecei a rascunhar o romance mas não estava satisfeito, quando decidi continuar com a sua escrita ao mesmo tempo em que estudava o esfarelamento do narrador do romance contemporâneo", lembrou Martins, que precisou de 7 anos para dar o ponto final. A experiência foi tão produtiva que Martins pretende repetir a dose e preparar o próximo livro, agora de contos, ao mesmo tempo que faz pesquisa acadêmica.Martins e Correia de Brito abraçaram-se efusivamente após o nome de cada um ser anunciado vencedor, derrubando concorrentes de grande porte como José Saramago, Milton Hatoum, João Gilberto Noll, Moacyr Scliar e Silviano Santiago. "Antes da cerimônia, fizemos uma brincadeira que o vencedor pagaria o jantar para o outro", comentou Correia de Brito. "Agora, cada um pode cuidar de si."

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