Romulo Fróes vai além do samba em álbum arrojado

No terceiro trabalho, que mostra ao vivo no Sesc Pompeia hoje, compositor se aproxima do rock e do experimentalismo

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

30 de abril de 2009 | 00h00

No Chão Sem o Chão (YB Music), de Romulo Fróes, é daqueles discos arrojados, que inquietam nas nuances e no estranhamento. O álbum duplo, que o compositor lança em show hoje no Sesc Pompeia, reúne 33 faixas em duas sessões - Cala a Boca Já Morreu e Saiba Ficar Quieto. É difícil destacar o melhor momento de duas horas. Ouça trecho da faixa Sei LáFróes tira um pouco o pé do samba melancólico que marcou seus álbuns anteriores - Calado (2004) e Cão (2006), que já tinha guitarra - e se aproxima mais do rock, do jazz, do blues e do experimentalismo, com ecos pós-tropicalistas, setentistas. A guitarra de Guilherme Held, ora melodiosa, ora dissonante, bate na memória do primeiro álbum de Jards Macalé, referência fundamental para este trabalho inclassificável de Fróes.Neste que ele aponta como "um disco de susto", há faixas longas e cheias de solos, como Do Ponto do Cão e A Anti-Musa, melodias intrincadas e letras montadas sobre cenas urbanas de atmosfera meio cinzenta, poesia dura, como convém aos rocks, e melancolia existencial. O CD 2 já é menos "noise", mais próximo da canção brasileira, do samba clássico. Nelson Cavaquinho continua sendo sua inspiração (bem como a relação com as artes plásticas expressa nos encartes), mas Fróes nunca foi convencional na abordagem do samba ou outro gênero.Entre um frevo, um choro, um samba - como a regravação de Uva de Caminhão, de Assis Valente -, ele escala o guitarrista Lanny Gordin e o pianista André Mehmari para uma mesma faixa (Ou Nada), a Velha Guarda Musical da Nenê da Vila Matilde, Andreia Dias, Nina Becker, Mariana Aydar e outras. Além de Held, a banda tem Fábio Sá (baixo), também autores de algumas faixas, Curumin (bateria) e Bocato (trombone) como convidado.Os principais parceiros compositores-letristas são os mesmos dos CDs anteriores - Clima e Nuno Ramos -, mas as canções tomaram novos rumos porque um influencia o outro, como confirma Fróes. "É isso o que me interessa desde o meu primeiro disco. Sou muito influenciado pelos músicos e por tudo o que me cerca." Guilherme Held e Fábio Sá são discípulos diretos de Lanny, tocam na banda dele. "Eles levaram esse trabalho do ponto de vista musical para uma coisa muito mais sofisticada", diz Fróes. Para ele seria impossível fazer harmonias como as de Sei Lá, de acento jazzístico. "Essa harmonia me fez criar uma melodia meio picotada como nunca tinha feito. A letra do Clima ficou meio sem assunto, mais em cima dos fonemas por causa disso."Fróes considera esse trabalho menos triste do que os outros, mas seu jeito de lidar com a música não mudou. "Não tem paródia. Nunca faço uma canção só por entretenimento. Não é também um manifesto pela tristeza, mas um comportamento de lidar com a música num sentido mais profundo." Serviço Romulo Fróes. Sesc Pompeia. Teatro (358 lug.). R. Clélia, 93, 3871-7700. Hoje, 21 h. R$ 16

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