Um Galeria
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Rodrigo de Castro exercita o ritmo das cores seguindo os ensinamentos do pai Amilcar

A geometria sensível do pintor, exercitada desde os anos 1980, está em exposição na Um Galeria, em Ipanema, no Rio

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2017 | 05h00

RIO - Azuis claros e noturnos, vermelhos vibrantes e austeros, pratas mais ou menos brilhantes, amarelos, roxos e verdes, branco e preto. Campos cromáticos com formas geométricas precisas, sempre cruzadas na vertical ou na horizontal por linhas finas, a lhes emprestar ritmo, contraste e um caráter quase tridimensional. 

A geometria sensível do pintor Rodrigo de Castro, exercitada desde os anos 1980, está em exposição desde terça, 9, na Um Galeria, em Ipanema, no Rio. “Se a geometria é científica, matemática, você deixa de lado a sensibilidade, se preocupa com outras questões. Eu construo o espaço com a cor”, explica o artista mineiro, residente em São Paulo há quatro décadas, quando estudou engenharia. 

Esta é sua primeira exposição no Rio, cidade em que por pouco não nasceu (em 1953), e onde morou até os 15 anos – o pai, o escultor Amilcar de Castro (1920-2002), vivia no Rio, mas a mãe quis ter seu bebê em suas Minas Gerais. São 15 óleos com cores predominantemente primárias recém-saídos de seu ateliê do Morumbi. Três já haviam sido vendidos antes mesmo da abertura da exposição. 

A curadora Vanda Klabin, que também trabalhou com Amilcar, sublinha a “cromofonia” dos quadrados e retângulos cromáticos nas telas, nos quais enxerga “acordes perfeitos de luz e cor”. “A constante presença das linhas negras e coloridas não representa linhas de força; serve para acentuar as relações métricas proporcionais e amplificar as zonas cromáticas. Todos os elementos que compõem o quadro tendem a se contrair ou a se dilatar até encontrar o seu equilíbrio”, ela analisa.

O uso do preto como força predominante é uma novidade em seu vocabulário cromático, e permite novos jogos de luzes. “É uma experiência o preto como força principal, nunca tinha feito. É um inverso de tudo. É importante ter coisas novas para se pensar. Caso contrário, a gente se repete”, avalia Castro, que aprendeu a “fazer fazendo”e a “pensar pensando” com o pai. Também foi ele quem lhe mostrou que não existe a inspiração romântica, mas a labuta.

“Ele dizia que ‘só o fazer ensina’. Vou para o ateliê todos os dias, como ele ia. Não há saída”, diz Castro. “Gosto quando tenho um prazo, como dessa vez, porque você não pode ficar nos devaneios. O trabalho criativo depende muito da forma física do cérebro, é preciso exercitar o pensamento para se pensar direito. A criatividade se renova.”

Ser “o filho do Amilcar” foi algo que o pintor precisou vencer. Ainda que sempre tenha apreciado a presença do pai em seu ateliê, com seus palpites e eventuais orientações. “Tive que superar. Acontece em todas as áreas. Quando você se liberta disso, o mundo te liberta. Meu pai me estimulou a seguir, ia a São Paulo, chegava ao ateliê, dizia o que era bom e o que era ruim”, rememora o pintor.

Ele é vice-presidente do Instituto Amilcar de Castro, tocado no dia a dia pela irmã, Ana de Castro. No momento, está começando a trabalhar com aço, a matéria-prima de Amilcar, mas pintado. “Gosto muito de buscar as cores que não são as do tubo. Quando eu era criança e morávamos no Leblon, meu pai trazia papel, pincel e aquarela e dava para a gente brincar”, lembra. “Aquela brincadeira me fascinava. Os amigos me chamavam para jogar futebol e eu não ia, preferia pintar.”

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