Will Barrett/Hastings Contemporary
Will Barrett/Hastings Contemporary

Robô vira guia de museu na Inglaterra

Para se aproximar de visitantes,o museu Hastings Contemporary personaliza tours online

Andrew Dickson, The New York Times

26 de abril de 2020 | 05h00

LONDRES - Numa manhã recente, um robô observava a arte em exibição no museu de arte contemporânea de Hastings. Guiada pela diretora do museu, Liz Gilmore, a máquina – uma tela do tamanho de um iPad presa a um cabo preto montado sobre rodas parecidas com as de um Segway –, passou rapidamente pelas obras do pintor inglês Graham Sutherland antes de se voltar para uma escultura colorida de Anne Ryan, artista do expressionismo abstrato americano. E, então, avançando com um pouco de entusiasmo demais, trombou contra a mesa onde estava a escultura.

“Não estragou nada”, Gilmore disse, animada. “É só voltar, virar à esquerda e tentar de novo.” Na verdade, ela estava conversando com este repórter, que controlava o robô por um laptop direto de Londres, a cerca de 110 quilômetros da cidade litorânea de Hastings, Inglaterra. Não é sempre que você precisa ter aulas de direção numa galeria de arte, mas estamos vivendo tempos estranhos.

A pandemia de coronavírus obrigou museus e galerias de todo o mundo a inovar. Fechadas para evitar a propagação da infecção, muitas instituições lançaram serviços como salas de visualização virtual, podcasts e aulas de arte online. Outras recorreram às mídias sociais para manter sua conexão com o público (o desafio do “doodle diário” da Royal Academy foi um sucesso no Twitter, com seu inusitado convite “quem consegue desenhar o melhor presunto?”).

Mas o museu Hastings Contemporary – que, como todos os espaços semelhantes na Grã-Bretanha, está fechado desde meados de março – tem uma outra carta na manga: passeios de robô, usando um dispositivo de “telepresença” móvel habilitado por Wi-Fi que roda pela galeria, enviando uma transmissão de vídeo de volta aos espectadores que estão isolados em casa. Parece ser a primeira vez que uma organização cultural britânica testa uma experiência remota de visualização de arte.

Gilmore explicou, por meio da interface de vídeo do robô, que a ideia surgiu de uma de suas curadoras, a artista Esther Fox. Os robôs de telepresença estão sendo cada vez mais utilizados na indústria de assistência médica e nas videoconferências interativas, “então pensamos, bom, se precisarmos mesmo fechar a galeria, talvez essa seja uma solução”, disse Gilmore.

A professora Praminda Caleb-Solly, do Laboratório de Robótica de Bristol, concordou em emprestar um de seus dispositivos, um modelo de US$ 4 mil fabricado pela empresa californiana Double Robotics. Ele chegou pouco antes de a Grã-Bretanha entrar em confinamento. “A arte é uma experiência compartilhada”, disse Gilmore. “Muitas pessoas estão sentindo falta disso.”

A operação do robô é simples: usando um navegador da web que vincula a câmera do robô ao seu computador, você o pilota com as setas do teclado. As escadas são impossíveis de transpor, mas, com assistência humana, a máquina pode pegar o elevador e parece desconcertantemente ágil. Passear por uma galeria deserta, em completo silêncio para além do ruído das rodas, no começo pareceu meio surreal, mas me acostumei depois de poucos minutos. Quando peguei a prática, consegui ampliar a tela o suficiente para ler um texto na parede.

“Os catálogos e as galerias online são ótimos”, disse Gilmore, “mas não permitem que você tenha uma ideia do espaço de uma exposição, de como é perambular pelo museu.” Desde a semana passada, o Hastings Contemporary começou a testar vários tipos de visitas virtuais usando o robô, tudo de graça, incluindo passeios com um guia pessoal, um curador remoto e vídeos pré-gravados. A esperança é que pessoas do exterior vejam o museu, estendendo o alcance da galeria para muito além da Grã-Bretanha.

“Tecnologias como esta podem nos conectar, mesmo em tempos normais”, disse Caleb-Solly em entrevista por Skype. “Pense em como poderíamos usar essas tecnologias em museus como o Louvre, para quem não consegue viajar.”

Gilmore já colocou nove de seus 13 funcionários em licença, e muitos guias voluntários estão em autoisolamento (alguns são aposentados, especialmente vulneráveis ao vírus). Embora o Conselho de Arte da Inglaterra, o principal órgão de financiamento do país, tenha prometido repasses emergenciais para muitas organizações, o poço fica mais fundo a cada dia. Algumas instituições artísticas britânicas anunciaram que continuarão de portas fechadas até o fim de junho, pelo menos. “A emergência de saúde é mais importante que tudo, claro, mas fechar as portas era a última coisa que queríamos fazer”, disse Gilmore. Enquanto isso, ela e sua equipe enxuta se dedicam a cuidar do edifício e se planejam para quando chegar o dia da reabertura. 

Enquanto o robô cruzava a galeria em direção à saída, um técnico instalava a próxima atração. Será uma mostra de novas obras do artista Quentin Blake, mais conhecido por suas excêntricas ilustrações de livros infantis. O plano é fazer uma estreia virtual no início de maio, com o robô no papel principal. O título da exposição é Vivemos em Tempos Preocupantes. “Neste momento”, disse Gilmore, “parece bastante apropriado.” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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