Roberto: adeus à fossa

No show de domingo, em Cachoeiro, ele mostrou que agora está feliz e que abandonou muitas manias

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

20 de abril de 2009 | 00h00

Errou um ou dois versos, lambuzou-se de bolo, leu no teleprompter as letras que esquecia a todo momento (como de hábito), mas cantou lindamente. Às 20h50, quando Roberto Carlos soltou a voz na noite estrelada de domingo, em Cachoeiro de Itapemirim, até os carros dos funkeiros que circulavam com sistemas de som envenenados pela cidade se calaram. "Eu voltei para as coisas que eu deixei", dizem os versos de O Portão, clássico de 1974 com o qual ele abriu a noite.O show em Cachoeiro foi único, mas não irrepetível. Cada vez que voltar à sua cidade provavelmente vai ser assim, essa espécie de ritual sanguíneo, a princípio inapreensível para forasteiros. Misto de ídolo, velho amigo e referência ética para seu público, Roberto diz que o segredo do "caso sério de amor" que tem com seus seguidores é que se confunde com eles. "Gosto da mesma coisa de que o povo gosta", diz. Mas é mais do que isso. Em sua figura, fundem-se Beatles e João Gilberto, o sacristão e o conquistador, o amante dos carangos envenenados e o inimigo dos hábitos perigosos. É o santo e o herege, o revolucionário e o conservador. "Minha mãe disse isso aí", afirmou o ?Rei?, após os primeiros versos de uma das surpresas da noite, Aquela Casa Simples (1986): "Naquela casa simples, você falou pra mim/ Que eu tivesse cuidado/ E não sofresse com as coisas desse mundo/ Que eu fosse um bom menino/Que eu trabalhasse muito."A malícia meio antiquada encoraja os muito tímidos e revela de forma simples os sentimentos mais secretos. "Não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada", diz o verso - e um velho playboy malandro de cabelo acaju abaixa a cabeça e ri quase sem jeito na platéia. "Ah, se por acaso ele cantar Cama & Mesa eu não vou resistir, não", ameaçava o deficiente visual Everaldo Cabral, sentado na primeira fila. Sob sua cadeira, seu paciente cão-guia Eros olhava desconsolado a agitação. Everaldo chamava a atenção porque filmava tudo com uma câmera digital. Mas a canção que sonhara não estava prevista no repertório de Roberto Carlos. As músicas que entraram num repertório espartano por obra e graça da visita do ''Rei'' a Cachoeiro, como Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo, de 1979, feita para o pai, o relojoeiro Robertino, pareciam encaixar como uma luva no corolário de mensagens afetivas do ?Rei?, cujas canções têm uma métrica toda especial. "Eu/ Já te falei de tudo/ Mas tudo isso é pouco/ Diante do que eu sinto." O público ensaiava um coral gigantesco. E vinham as surpresas, como Olha e Por Isso Estou Aqui. Garotas de 13 anos cantavam com mães e avós hits como É Proibido Fumar e Namoradinha de um Amigo Meu. E como escapar à sequência de músicas de apelo erótico (Proposta, Cavalgada)? Estrelas mudavam de lugar, chegavam mais perto só para ver."Eu não sou louca. Apenas vou aonde o amor está", dizia a advogada carioca Adnélia Santos, usando um quepe de capitão de navio, rosas tatuadas nos braços, segurando faixas azuis na qual declarava sua paixão pelo cantor Roberto Carlos, perigosamente enroscada no arame farpado do aeroporto municipal de Cachoeiro de Itapemirim. Ela já viu 75 shows do ídolo ao longo de décadas de veneração. O aeroporto da pequena cidade viveu seu dia de Beatlemania. Na vidraça do saguão, um menino prensava um filhote de cachorro assustado contra o vidro, uma mulher chorava, centenas gritavam pedindo atenção, três adolescentes imploravam por uma garrafa d?água de algum dos 90 jornalistas credenciados que ocupavam o abafado salão.O show transcorria com sinais de mudanças significativas na rotina do mais excêntrico ídolo da MPB. Ele nem de longe parecia aquela figura monolítica, cheia de manias. Cortou o cabelo, tirou os ternos de ombreiras, escolheu uma cor cinza azulada sóbria para o paletó, estava sorrindo mais e improvisando ainda mais. Deu bolo para os músicos, para os filhos no palco. "Eu queria que sempre tivesse bolo", disse, depois de oferecer um pedaço do gigantesco doce de aniversário para uma moça anônima da platéia. Pela primeira vez em 10 anos não ofereceu o show à mulher morta, Maria Rita, morta em 1999. "Esse show eu ofereço a cada habitante desta cidade", declarou ele.Tudo é igual, mas tudo mudou. Pela primeira vez em décadas, Roberto disse a palavra "mal" nos versos de É Preciso Saber Viver. "Se o bem e o mal existem, você pode escolher." Ele tinha banido, por superstição, o vocábulo de seu dicionário musical. Fez um show alto astral - alguns atribuíam o espírito jovial à nova namorada, que renovou o guarda-roupas e o espírito do ?Rei?.Roberto Carlos seria extraordinário até se cantasse apenas jingle de loja popular. Atravessou com extrema dignidade e uma voz incomensurável um lote de canções até meio simplórias, aquelas que falam de sua infância e do pertencimento a uma comunidade, a um projeto de futuro, como é o caso de Aquela Casa Simples, Lady Laura e Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo. Tem muito cachoeirense que se queixa de que o ?Rei?, na verdade, está se lixando para sua cidade natal. Outros defendem o contrário, como o comerciante José Carlos Scandiani, que jura ter encontrado o cantor passeando incógnito de madrugada pelas margens do Itapemirim. "Eu fui até ele e disse: você é o cara, não é? E ele deu aquela gargalhada dele", conta. O empresário de Roberto, Dody Sirena, disse que Roberto sobrevoou a cidade apontando aqui e ali os pontos onde viveu grandes histórias na infância, com extrema emoção.Carlos Alberto Braga, irmão do ?Rei?, estava sentado na terceira fila, enfrentando uma fila de entrevistadores. "Cachoeiro ficou pequena demais. Mas um dia eu gostaria de voltar com mais tempo para encontrar os velhos amigos. Ainda não encontrei ninguém", disse Carlos Alberto. Na noite de domingo, no entanto, Cachoeiro era o mundo inteiro. Roberto Carlos fechou a noite com fogos de artifício e rosas no reencontro com sua gente. Será sempre o filho dileto. "Tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu. E mesmo que São Pedro tenha ordem para não me deixar entrar, ele ficará indeciso quando eu lhe disser em voz baixa: ?Eu sou lá de Cachoeiro?", escreveu o cronista Rubem Braga, conterrâneo de Roberto, em suas Crônicas do Espírito Santo, de 1984.

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