Roberto 50

O maior cantor popular do País dá a largada para a celebração do cinquentenário de carreira, que iniciou em 1959 como modesto crooner da Boate Plaza, no Rio

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

14 de janeiro de 2009 | 00h00

Em 1959, Roberto Carlos estava numa sinuca de bico. Saíra meio desgostoso do conjunto The Sputniks, no qual dividia a liderança com Tim Maia. Muitas gravadoras lhe diziam não sem cerimônia: fora recusado pela Chantecler, pela RCA, pela Philips, pela Odeon.Tinha então 18 anos e teve de recorrer a um primo, o Amaral, gerente da boate Plaza, em Copacabana, para conseguir um contrato como cantor da noite do Rio. Assinou para trabalhar como crooner da casa noturna. Ali ele ganharia seu primeiro salário profissional, e foi esse momento, o do primeiro pagamento, que ele considera o início de sua carreira consagrada de cantor (embora já tivesse uma década de experiência musical).Por conta dessa data-chave, Roberto (que faz 68 anos em abril) inicia agora em fevereiro - no mar, cantando para 2.682 pessoas no navio Costa Mágica - as comemorações dos seus 50 anos de carreira, que começou naqueles 9 meses de trabalho na Boate Plaza. Naquele tempo, como conta a proscrita biografia Roberto Carlos em Detalhes, ele cantava bossa nova, imitando João Gilberto. O maior ídolo popular do País contrariava assim a vontade de seu pai, o relojoeiro Robertino, que preferia que ele continuasse estudando datilografia para cuidar do futuro.Logo depois, em julho do mesmo ano, Roberto seria aceito pela Polydor, após uma audição com Roberto Corte Real, e gravaria um compacto em 78 rotações com as canções Fora do Tom e João e Maria, ambas de Carlos Imperial. No mesmo ano, Roberto ainda gravaria outro 78 rotações com Brotinho Sem Juízo e Canção do Amor Nenhum (Carlos Imperial).É curioso que Roberto assinale o momento do primeiro salário como o do início de sua carreira, já que ele foi demitido da Boate Plaza meses depois - o motivo foi a também demissão do gerente Amaral, seu primo, que o havia contratado."É estranho e sintomático que ele considere mais o dinheiro que recebeu como o marco inicial de sua carreira, e não a primeira gravação", alfineta o escritor e historiador Paulo César Araújo, biógrafo rejeitado pelo artista.Ricardo Pugialli, autor do livro Almanaque da Jovem Guarda, acredita que fevereiro de 1959 foi o mês em que Roberto Carlos iniciou sua primeira temporada como cantor profissional. "A data precisa é muito difícil de se afirmar. Não existem mais documentos sobre o período. Provavelmente Roberto pode ter os originais. Nada mais existe da antiga boate ou mesmo do hotel Plaza. Temos hoje um novo hotel no local, com o mesmo nome, mas tudo foi modificado. Não há fotos, documentos, cartazes, nada", conta o autor. "O que eu tenho, baseado nas entrevistas que fiz com a cantora Geny Martins, que trabalhou com Roberto na boate, é que o contrato-padrão era de seis meses. Ela começou em outubro de 1958. Roberto, ao que parece, começou em fevereiro de 1959", arrisca Pugialli.Segundo o escritor e pesquisador, autor de um livro que Roberto Carlos elogia, o cantor parece preferir a data como marco inicial de sua carreira (em vez da gravação do compacto em 78 RPM) por um motivo especial. "Cantando na mesma casa onde João Gilberto se apresentou, onde os cobras da bossa nova (Baden Powell, Johnny Alf, João Donato, Milton Banana, entre outros) davam canjas quase todas as noites, é com certeza o motivo pelo qual ele guarda com carinho a data. Já o disco não é um trabalho que eu acredito que ele tenha gostado tanto. Não estava em seu estilo, era uma emulação de João Gilberto e ele foi muito criticado na época pelos músicos e simpatizantes da bossa nova."O próprio Roberto, em uma de suas entrevistas, em 2005, foi sucinto a respeito da data. "Eu tinha uns 16 ou 17 anos e só ouvia rock?n?roll, quando um dia, no rádio do carro, escutei João Gilberto. Mudei tudo e só quis cantar bossa nova", contou. "Por isso, meu primeiro trabalho como cantor foi na Boate Plaza."O livro Roberto Carlos em Detalhes contém dado precioso sobre aquele período de Roberto como crooner da Boate Plaza. Com informações do próprio João Gilberto, que entrevistou em Salvador, Paulo César Araújo conta como foi a noite em que o papa da bossa nova foi ouvir aquele que pichavam como "uma cópia meio aguada" de si mesmo.João Donato tocava na boate como pianista do pistonista Barriquinha. Estava à porta da boate e recepcionou João Gilberto, que viera conferir o "João Gilberto dos pobres". Roberto Carlos apenas ouviu o burburinho: "O homem está aí, o homem está aí!", disse alguém. "Lembro-me que quando entrei na boate, Roberto estava cantando Brigas Nunca Mais. Achei o Roberto muito musical", confirmou o próprio João Gilberto. "Até hoje não tinha certeza se João Gilberto havia mesmo me ouvido cantar naquela noite no Plaza", disse Roberto mais tarde. O ?Rei? foi bastante discriminado pela turma da bossa, liderada por Ronaldo Bôscoli. "Olha, bicho, não tá muito legal esse negócio de você imitar João Gilberto. A turma está chiando porque você canta parecido demais. Isso não é legal", disse Roberto Menescal, ao impedir Roberto de cantar numa das canjas dos bossa-novistas no Leblon. Há quase dois anos, após empreender rumorosa batalha judicial contra o escritor Paulo César Araújo, que levou 15 anos para escrever sua biografia, o cantor anunciou que lançaria em 2009, como parte das comemorações dos 50 anos de carreira, sua própria biografia oficial. Roberto, que alegou "invasão de privacidade" e "mentiras" na biografia de Araújo, argumentava que só ele poderia contar sua própria história. "As coisas que vivi, ninguém pode saber melhor que eu, porque eu as vivi", disse. "A minha história é um patrimônio meu. Ninguém vai contá-la melhor que eu."O eleito para transcrever sua lenda é o jornalista Okky de Souza, e o projeto já tem mais de uma década. Segundo Souza já disse, sua opinião é de que o cantor é um dos raros artistas que "conhece a alma do povo". Okky de Souza foi quem escreveu o texto biográfico do site do cantor. Outra novidade prevista para este ano seria uma grande turnê de Roberto pela América Latina, passando por Argentina, Chile e México.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.