Ritual para comer o que nos devora

Zé Celso faz banquete nos 80 anos de criação do Manifesto Antropofágico

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

24 de maio de 2008 | 00h00

Os poucos motoristas que circulavam pela Avenida Paulista ao meio-dia na quinta-feira do feriado de Corpus Christi provavelmente não entenderam bem que turma era aquela que os fez parar para que atravessassem a rua dançando, como índios, ao som de chocalhos. ''Qual o objetivo disso?'', pergunta uma senhora que passava por acaso na calçada e foi surpreendida pelo diretor Zé Celso Martinez Corrêa e seus atores. Era o início do ritual de celebração dos 80 anos do Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade (1890-1954), um dos teóricos que ''ainda fazem a cabeça'' e sobretudo ''o corpo'' dos artistas do Teatro Oficina.O Sesc da Paulista é o local do banquete antropofágico, mas o ritual começa do lado de fora. O prometido tapete de flores limitou-se a círculos coloridos sobre a calçada defronte ao Sesc - e não chegou até a estação do metrô como anunciado -, mas a celebração não deixa a desejar. No figurino dos atores um espectro da sociedade brasileira em diferentes épocas. Frade, imperador, índio nu, pai-de-santo, executivo de terno e Mário de Andrade (Paschoal da Conceição) estavam entre os que evoluíram em alegre procissão puxada por Zé Celso pelos jardins da vizinha Casa das Rosas antes de entrar de volta no Sesc da Paulista.Público e atores sobem as escadas - iluminadas e sonorizadas - até a sala do 3º andar onde a trupe encena em grande estilo o manifesto, estatuto da Universidade Antropofágica que Zé Celso planeja fundar, tema de discussão que se seguiu à celebração. Elegantemente vestida de vermelho à moda dos anos 20, a atriz Célia Nascimento ''encarna'' 1928, ano da publicação do manifesto. Guilherme Calzavara é o índio devorado por seu filho (Ariclenes) sobre a bigorna, símbolo do Oficina, que faz às vezes de mesa. ''Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.'' As primeiras palavras do manifesto surgem em forma de jogral. Assim será por todo o ritual de encenação. Marcelo Drummond faz entrada solene, todos em silêncio, no momento do ''Tupi, or not tupi'' que desemboca em samba com ''ser ou não ser'' no refrão.Sentados às duas cabeceiras da mesa-bigorna, Oswald de Andrade (Guilherme Calzavara) e Tarsila do Amaral (Sylvia Prado), vestidos como dois bons burgueses, brindam e comem rãs - acompanhados do canto dos atores às gias (nome popular das rãs no Nordeste) que rimaram com ''magia'' na canção nascida da verve inesgotável do grupo. Depois, o casal tira a roupa e se devora em sensual dança sobre a mesa. ''O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará'', o coro fala mais um trecho do manifesto no centro da sala, cercado pelo público. ''E o cinema sul-americano também'', acrescenta Zé Celso, em coreografia de rumba, fazendo de chocalhos, maracas.A frase anterior é o mote para a nudez das mulheres, subitamente índias, violentadas por colonizadores. ''Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande'', é o próximo trecho do texto de Oswald. Na sala, três das laterais têm telões sobre os quais se projetam imagens. E a frase projetada neste momento, em grandes letras - turismo sexual - liga violências do passado e do presente.Mais do que encenar, o grupo encarna o manifesto. A antropofagia começa pelas criações do próprio Oficina que também comemora 50 anos. Velas são distribuídas ao público. As luzes se apagam. Zé Celso conduz o espectador a soprar as velas num exercício de respiração que relaxa corpos. ''Ganho um tostão por cada morto'', é a frase de O Rei da Vela que surge na sala-terreiro. Passado e futuro se entrelaçam. Maria Eduarda (Sylvia Prado), a matriarca da família Drummond, personagem de Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues que Zé Celso deve encenar no fim do ano, surge em cena, e é devorada no bordel de seu enteado. Atores se transformam em personagens de O Bando, peça de Schiller (publicada como Os Bandidos no Brasil) que Zé Celso já ensaia para estrear em breve.''Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos.'' Rousseau e Montaigne surgem e são devorados. Manifesto e ritual.Buñuel será o próximo. Navalha em punho, um ator (Dita) é o cineasta no ato de cortar o olho da atriz Camila Mota enquanto, simultaneamente, a famosa cena de O Cão Andaluz é projetada no telão. Freud - ''vestido de branco cocaína'' -, o poeta russo Maiakovski, o cineasta Eisenstein são outros canibalizados. Passa das 13 horas. A reportagem do Estado se retira. Como prometeu Zé Celso, o ritual só terminará ao pôr-do-sol.

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