Rita, Irina Palm, Deserto Feliz, todas as caras das mulheres

Além do combate ao tráfico exposto em Tropa de Elite, a prostituição fornece outro tema explosivo para reflexão

RIO, O Estadao de S.Paulo

02 Outubro 2007 | 00h00

Você sempre ouviu falar em Lady Di como a princesa do povo. Bem - isso é lá para os ingleses. No Brasil, a Lady do Povo é Rita Cadillac, a chacrete que, desde os anos 70, encarna um mito de sensualidade no imaginário do macho brasileiro. O documentário de Toni Venturi não omite nada - a prostituição, os filmes de sexo explícito. Mas a Rita que emerge desse filme é outra pessoa e não a estrela pornô. Na abertura, a Lady do Povo prepara o almoço e insiste com a neta para que coma, como faz qualquer avó dedicada. No fim, Rita se casa - um casamento ruidoso, bem ao estilo dela. Existem duas Ritas em A Lady do Povo - a de Cássia, como foi batizada, e a Cadillac, como foi rebatizada por causa do bumbum. O Cadillac era aquele modelo de carro dos anos 60 que se caracterizava pelo rabo enorme. As duas Ritas interagem na persona pública e privada da Lady do Povo. Às vezes brigam, como ela revelou - Rita de Cássia era contra que Rita Cadillac fizesse cinema pornô, mas, no final, foi o dinheiro que ganhou no sexo explícito que permitiu a Rita Cadillac comprar a casa para Rita de Cássia. Da mesma forma, é Rita Cadillac quem realiza o sonho de Rita de Cássia de se casar, de levar uma vida familiar, com marido, filhos, netos, parentes. Isso é muito importante para Rita, cujo pai morreu quando ela tinha 13 dias, apenas. O pai não devia ser perfeito, mas Rita, criada pela avó (a mãe sumiu no mundo), desenvolveu uma imagem idealizada desse pai, a quem venera. No domingo, dia da exibição de Rita Cadillac - A Lady do Povo no Festival do Rio, ele estaria de aniversário. De manhã, Rita foi ao cemitério do Caju. Levou flores, como faz todo ano. Voltou ao hotel e chorou. Estava nervosa diante da próxima exibição de A Lady do Povo, que ainda não havia visto. Talvez se possa fazer uma ponte entre o documentário de Toni Venturi e uma ficção exibida neste festival - Irina Palm, de Sam Garbarski, com Marianne Faithfull como uma avó que vira masturbadora profissional para conseguir o dinheiro para pagar a cirurgia do neto e, no processo, se liberta, emancipa. Rita fez o que foi preciso para superar as dificuldades de sua vida. Dane-se o preconceito. Pode-se fazer outra ponte, com outro filme do festival - Deserto Feliz, de Paulo Caldas, também exibido no domingo. O filme conta a história de uma garota que se prostitui. Um gringo a leva para a Europa. Uma denúncia do turismo sexual? O gringo a ama, a exorta, em mais de um momento, a fazer alguma coisa. Ela é irritante - deixa-se levar pela vida, não aproveita as oportunidades. Deve haver um milhão de garotas assim. Aprenderiam muito com as lições de vida da guerreira Rita.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.