Riscos, surpresas e saltos sem rede enchem os palcos

O ano teatral que acabou teve de tudo um pouco - e muita cena promissora

Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

02 de janeiro de 2009 | 00h00

Na penumbra do teatro, durante mudanças de cena, os intérpretes tiram e colocam objetos. De repente, um senhor de cabelos brancos está entre eles, ajudando. É José Renato, o diretor do espetáculo Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho. Seria rotineiro em outro lugar, mas estamos no Teatro de Arena, e aquele homem é o seu fundador. Não longe dali, o Teatro Oficina mostra uma "teatralcinematográfica" versão de Os Bandidos, de Schiller, com direção José Celso Martinez Corrêa. Os dois grupos já foram parceiros e, juntos, contribuem, desde os anos 50, para a modernidade do teatro paulista. É compreensível que o caminho do futuro faça referência ao passado. José Renato criou uma oficina de atores para remontar Chapetuba. O espetáculo tem agilidade, tensão, ritmo, elenco adequado. Bonito de ver.Já o Oficina chegou aos 50 anos no seu auge pós-tudo (crise interna, exílio, disputa por mais espaço, vitórias). Não acabou e não acabará. Invoca outra vez a "antropofagia" de Oswald de Andrade para transformar o original de Schiller (nobreza parasita versus ímpeto juvenil e republicano) na narrativa de sua própria luta. Há dois fatos contrastantes no espetáculo: o uso obsessivo do sexo como agressão e grotesco, o que é antiquado (a vida aqui fora não se escandaliza mais com nada disso) e - aqui sim, beleza - o domínio de instrumentos multimeios para o sonhado teatro total de Artaud e Piscator. Essas as linhas referenciais da temporada 2008. Entre um ponto e o outro, muita arte aflorou nos palcos. Como o teatro é espelho do tempo, é bom ver que o ano teve a marca de outros dois veteranos: Antonio Abujamra e José Alves Antunes Filho. Com Senhora dos Afogados, Antunes prossegue a decantação dos infernos de Nelson Rodrigues e dele extrai racionalidade poética. O que parece ser gueto mental e suburbano esconde o homem universal, imperfeito e triste. Da sua parte, Antonio Abujamra encenou Os Possessos, de Dostoievski, e do enredo, que é um pântano de revoluções perdidas, taras aristocráticas e demência das massas, fez um espetáculo altivo com o elenco entoando a Internacional. Registros velozes: Confissão de Leontina, com Erika Moura, direção de Marat Descartes; Luciana Carnielli escreveu e interpretou Meu Abajur de Injeção, uma meditação sobre Cacilda Becker. O Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) do Sesc prosseguiu, com êxito, no investimento literatura dramática com O Céu 5 Minutos Antes da Tempestade, de Silvia Gomes e Eric Lenate. Dois profissionais do cinema, como críticos, ensaístas e curadores de mostras, aderiram ao palco: Amir Labaki ao escrever Lenya, delicada homenagem a Lotte Lenya, cantora e atriz das obras de Kurt Weill e Bertolt Brecht; e Rubens Ewald Filho na direção do vigoroso O Amante de Lady Chatterley. Investidas de risco: Rainha (s), revisão da peça Mary Stuart, de Schiller, que a diretora Cibele Forjaz colocou acima dos pequenos ruídos do texto, graças às interpretes Isabel Teixeira e Georgette Fadel. Outro salto sem rede: Calígula, texto difícil, bem traduzido, elenco desigual, mas com os achados felizes do diretor Gabriel Villela.Boas surpresas: Em Ménage, as irmãs Marina (direção) e Domingas (atriz) Person deram um toque de inteligência crítica às comédias conjugais. O implacável crítico social austríaco Arthur Schnitzler reapareceu com La Ronde, drama de casais levados à traição pelo cansaço das relações, o que foi demonstrado no afinado dueto de Liz Reis e Marcelo Marcus Fonseca, também diretor. O teatro recebeu de braços abertos o romancista Milton Hatoum na adaptação do seu romance Dois Irmãos, direção de Roberto Lage com um elenco de primeira. Mas o momento perfeito chegou para Clarice Niskier - beleza de atriz - em A Alma Imoral, monólogo que trata de fé, verdade e traição. Reflexão humanista sobre a hora em que é preciso escolher entre a convicção íntima e a tradição. O escrito do rabino Nilton Bonder, dirigido pelo árabe-brasileiro Amir Haddad, voltará em 2009. E nos despedimos do ano anotando a falta de um Festival Internacional de Teatro de São Paulo, razão para homenagear quem o criou e manteve por anos. Viva Ruth Escobar.

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