Rir e refletir, eis o melhor de Brecht

Montagem de A Alma Boa de Setsuan segue à risca essa lição e pede a cumplicidade da platéia ao optar por camarins em cena

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

24 de julho de 2008 | 00h00

Quando o público entra no teatro para ver A Alma Boa de Setsuan, os atores já estão no palco. Como queria o autor e teórico Bertolt Brecht, o diretor Marco Antonio Braz trouxe os camarins para a cena, o que de saída estabelece uma cumplicidade entre público e os 11 atores. ''Não saem coelhos da cartola nessa encenação, tudo é Brecht, e fruto de muito ensaio de um elenco preparado, que mergulhou com intensidade na proposta'', diz Braz. Veja galeria de fotos da peçaRealmente, além dos atores destacados abaixo, o espetáculo pode se dar ao luxo de ter bons atores em pequenos papéis, como é o caso de Marcos Cesana, que assina a adaptação da peça com Braz, e encarna o policial, o tapeceiro e o sacerdote Bonzo. Como intérprete, dificilmente Cesana receberá críticas negativas; já as alterações no texto podem desagradar aos puristas. ''É uma experimentação dramatúrgica audaciosa'', reconhece Braz.Os cortes mais radicais de trechos da peça foram feitos na participação dos três deuses, que se transformaram em apenas um, papel de Ary França. ''Eles apareciam no intervalo de cada uma das cenas para comentar com Wang, o aguadeiro (Maurício Marques) o que se passou. Era uma forma de fazer o público pensar. A meu ver, interrompia o fluxo da ação e a reflexão proposta pode ser feita pelo espectador da mesma forma'', argumenta Braz. O espectador tem elementos para entender a armadilha na qual cai Chen Te. E a grande qualidade desse texto é o desfecho totalmente aberto, não há resolução, isso fica para o público.''Denise Fraga fala com paixão desse texto que aborda em profundidade o tema da desigualdade social com humor e lances de folhetim. ''Vivemos num tempo de muito medo do comprometimento. Sabe aquela história de que se você der uma mão a pessoa vai querer levar seu braço? A gente teme se envolver e depois não dar conta. Vivemos pequenas clausuras, sob a lei do viva e deixe viver, ilhados em nossas individualidades'', afirma. ''Num tempo assim, as questões éticas que essa peça levanta são cruciais. A gente esquece que pode, sim, dar a mão sem perder o braço. Eu faço minha parte, você faz a sua, não é suficiente. É muito importante que tenhamos a coragem de botar as diferenças na mesa e nos unirmos para fazer mais'', diz Denise.Partiu dela o convite para realizar uma montagem sob a direção de Marco Antônio Braz, a quem conheceu ainda quando morava no Rio. Denise Fraga formou-se na Escola Martins Pena, no Rio, onde também estudou Maurício Marques, na mesma época em que Braz se formava em artes cênicas na Universidade do Rio (Unirio). Marques iria integrar o Cite Teatro, grupo fundado por Denise e dirigido Moacir Chaves.Braz e Marques mudaram-se para São Paulo e passaram a integrar o Centro de Pesquisa Teatral (CPT-Sesc) dirigido por Antunes Filho. Aqui, o trio se reencontrou. Denise acompanhou a trajetória do Círculo dos Comediantes, grupo dirigido por Braz no qual Marques atuava. ''Há cinco anos planejo trabalhar com eles. Lemos algumas peças, cheguei a pensar em Como Você Gosta, de Shakespeare, O Mambembe, de Artur Azevedo. Foi Braz quem me deu A Alma Boa de Setsuan para ler e imediatamente fiquei apaixonada pelo texto e pela idéias de Braz sobre a encenação. Ele enfatizava que Brecht não acreditava em arte sem diversão. A gente só não fez antes porque não conseguiu dinheiro. Mas tudo acontece na hora certa. Reunimos um elenco maravilhoso.''Apostar na chave cômica e na forte comunicação com o público não significa abrir mão da reflexão, pelo menos é nisso que a equipe de criação aposta. ''É assustador pensar que a gente acredita na necessidade da força e da autoridade para resolver problemas sociais e vê como fragilidade ou ingenuidade a generosidade'', diz Braz. Pode ser diferente? Essa pergunta é corajosamente feita ao final.Serviço A Alma Boa de Setsuan. 110 min. 12 anos. Teatro Renaissance (462 lug.). Alameda Santos, 2.233, Cerqueira César, tel. 3188-4147. 6.ª, 21h30; sáb.,21 h; dom., 19 h. R$ 60 e R$ 80 (sáb.). Até 28/9

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