Rio quer bibliotecas como as da Colômbia e do Chile

Biblioteca Pública do Estado do Rio, instituição criada em 1873 por d. Pedro II, receberá R$ 15 milhões para reformas nos moldes das melhores similares latinas

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

20 de outubro de 2008 | 00h00

Acostumada a visitar as tradicionais bibliotecas européias e norte-americanas, Ana Lígia Medeiros, diretora da Biblioteca Pública do Estado do Rio (BPERJ), empolgou-se ao ver de perto as bem-sucedidas experiências de nossos vizinhos Colômbia e Chile. Em março, numa viagem de trabalho a Bogotá, Medellín e Santiago, ela se deparou com espaços monumentais e, paradoxalmente, acolhedores, que atraem milhares de pessoas, e de todas as idades. "Num sábado à tarde, vi uma biblioteca colombiana coalhada de pais e crianças. Isso é lindo", diz Ana Lígia, que sonha ver a cena replicada no Rio. Não é só sonho. Bibliotecária com mais de 20 anos de experiência, com passagens pela Biblioteca Nacional, a Casa de Rui Barbosa e a Fundação Getúlio Vargas, ela desenvolveu um projeto de modernização da BPERJ que está saindo do papel depois de três anos. A entidade, vinculada à Secretaria Estadual de Cultura, receberá R$ 15 milhões. Metade virá do Ministério da Cultura e a outra, da secretaria. O dinheiro, que deve ser liberado nos próximos três anos, será usado para recuperar o prédio que tem infiltrações - a reportagem do Estado avistou uma goteira logo na entrada -, aquisição de acervo atualizado, e para deficientes visuais, instalação de equipamentos de segurança, compra de CDs, DVDs, jornais e revistas, e ainda adaptação arquitetônica para tornar mais atraente o seu interior. A primeira parcela deve chegar ainda este ano e a medida mais urgente é a recuperação do telhado. A BPERJ foi criada em 1873, por d. Pedro II. O prédio atual, de 1987, é muito bem localizado (Avenida Presidente Vargas, no centro), pertinho da estação ferroviária da Central do Brasil, de pontos de ônibus e estações do metrô, de modo a ser acessível a moradores de todas as regiões do Rio e de municípios vizinhos. Na época da inauguração, recebia 3.500 visitantes por dia. Hoje, passados 20 anos sem grandes investimentos, são meros 800. Ana Lígia, que começou nos anos 80 coordenando o projeto de criação da BPERJ, se afastou por cinco anos e voltou em 2004 cheia de gás, não se conforma com esse número: quer aumentar o número de visitantes para 5 mil."A Biblioteca Luis Ángel Arango, em Bogotá, recebe 9 mil por dia. Pessoas que vão atrás não só de livro, mas de entretenimento. É possível na Colômbia e Chile e aqui também vai ser. Biblioteca é para todo mundo. No Brasil, virou quase uma coisa escolar. Mas o conceito ultrapassa isso." A BPERJ recebe adolescentes fazendo trabalho escolar; trabalhadores, que vão ler o jornal do dia (tem fila na porta, antes de abrir); e pesquisadores interessados na coleção Guanabarina, o "filé mignon" da biblioteca, com documentos do século 19, importantes para o estudo da memória do Rio. Além do Rio, São Paulo e Pará também devem receber investimentos do MinC ainda este ano, assim como a Biblioteca Pública de Niterói. A idéia é que cada Estado tenha um equipamento estadual que sirva de referência para o sistema municipal de bibliotecas. "A gente quer mudar a idéia de biblioteca que se tem no Brasil. Tem de ser um centro cultural, atraente, moderno, em que o livro conviva com outros suportes", explica Jéferson Assumção, coordenador-geral de Livro e Leitura do MinC. Além dos repasses às grandes, o MinC está liberando também R$ 55 mil para melhorias em bibliotecas de 410 cidades pequenas. Na Colômbia, as bibliotecas são braços dos programas de combate à violência. Bem decoradas, coloridas e convidativas, oferecem exposições, shows de música, brinquedoteca e debates todos os dias. Além de disponibilizar um acervo de 120 mil documentos, e parte dos livros pode ser levada para casa, a BPERJ tem oficinas de línguas, internet gratuita e aulas de dança e de teatro (com fila de espera). Mas o objetivo é ir além. Como Ana Lígia enfatiza "o que se quer são bibliotecas públicas de verdade, e não arremedos de bibliotecas".

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