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Rio celebra os 50 anos da Polígrafa com exposição e venda de gravuras

Trabalhos de artistas brasileiros e estrangeiros, como Cruz-Diez e Francis Bacon, estão na Galeria Mul.ti.plo, no Leblon

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

08 Dezembro 2014 | 03h00

RIO - Num clássico dos estudos culturais de 1936, o filósofo alemão Walter Benjamin discorre sobre a perda de valor das obras de arte reprodutíveis. O “aqui e agora da obra”, “sua existência única no lugar em que se encontra”, ou sua aura, seria perdida quando ela deixa de ser uma só. Qual seria então a singularidade e o lugar da gravura, multiplicável por natureza?

Quanto mais cópias são feitas com a matriz artesanal, menor é seu valor de mercado. Hoje, uma tiragem de 30 unidades é considerada de bom tamanho, mas o número não tem um limite fixo. É uma técnica menos valorizada quando se trata de um mesmo artista. Um desenho de Waltercio Caldas, por ser um exemplar que não pode ser copiado, sai por R$ 20 mil ou R$ 30 mil, enquanto uma gravura sua pode ser adquirida por R$ 3 mil ou menos. Uma tela de Eduardo Sued chega a R$ 24 mil o metro linear; o múltiplo sai por R$ 1 mil.

Nesse contexto, os 50 anos da editora de gravuras catalã Polígrafa Obra Gráfica, uma das mais importantes do mundo, respeitada pela qualidade de suas impressões e por ter editado nomes como o espanhol Joan Miró, o alemão Max Ernst e o inglês Henry Moore, está sendo comemorado com iniciativas em várias partes do mundo (Inglaterra, Estados Unidos, Chile, Taiwan) como uma vitória da gravura. 

No Rio, a celebração, na galeria Mul.ti.plo, no Leblon, é com uma exibição de 30 múltiplos selecionados no acervo da Polígrafa, em sua maioria gravuras com preços que vão de R$ 1.200 a R$ 42 mil. Estão nas paredes a última do britânico Francis Bacon, a mais cara de todas expostas, e a primeira feita pelo espanhol Antoni Tàpies, que não está à venda. E obras do catalão Jaume Plensa, do venezuelano Cruz-Diez e dos brasileiros Waltercio Caldas e Nelson Leirner e Daniel Senise.

A mostra foi aberta há duas semanas e as vendas estão aquecidas – já foram compradas 20 peças. De Alfons Borrell, foram seis gravuras, cada uma a R$ 1.200. “Tem artista que acha que basta reduzir o tamanho de uma tela para se ter uma gravura. Muita gente pensa que é um trabalho menor. Para nós, não é assim. Trabalhamos com múltiplos concebidos assim e acreditamos na poesia de cada um”, diz Stella Ramos, sócia da Mul.ti.plo, que mantém parceria com a Polígrafa.

A galeria foi aberta há quatro anos com foco em gravuras – na contramão do mercado das cifras milionárias do aquecido cenário brasileiro – e com o propósito de acabar com o preconceito e a suposta hierarquia entre as técnicas. 

“Não é necessariamente uma obra para um colecionador iniciante, que tem pouco dinheiro; pelo contrário, comprar gravura requer um olhar treinado. Se for só pelo preço é melhor adquirir uma tela barata”, opina Stella, que, antes de abrir o espaço, procurou artistas como Luiz Zerbini, Barrão, Antonio Dias, Waltercio e Carlos Vergara e teve dificuldades de encontrar gravuras deles. 

Na Espanha, as edições são tradicionais. No Brasil, se desvalorizaram nos anos 1980 e estão se reabilitando, mas ainda faltam bons editores. Situada em Barcelona e pródiga na divulgação de artistas espanhóis, a Polígrafa é referência mundial por ter editado mais de 300 artistas modernos e contemporâneos. Trabalha com técnicas diversas de impressão, com matrizes em madeira, metal, pedra e tecido. 

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