Revistas para os neurônios mais exigentes

Ao bravo rol de publicações literárias no Brasil, acaba de juntar-se mais um título: a versão nacional da inglesa Granta

Sérgio Augusto, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

Não faz muito sentido, mas é um fato estatisticamente comprovado: o brasileiro não é chegado a um livro (lê menos de dois por ano), mas por falta de revistas dedicadas à promoção e discussão literárias e à cultura em geral não morreremos na mais crassa ignorância. Se paradoxo, um paradoxo do bem. Certo, suas tiragens são modestas (e por isso não verificadas pelo IVC), seu público é restrito - mas qualificado e fiel.A revista Cult, por exemplo, já circula há dez anos, com as dificuldades e os deleites da espécie, e disso até seus concorrentes deveriam se orgulhar. A persistência e permanência da recifense Continente Multicultural e do curitibano Rascunho são provas reconfortantes de que a difusão de idéias e formas criativas não é mais uma exclusividade do eixo Rio-São Paulo.''''O importante não é vender muito, é tornar-se relevante'''', resume bem a questão o documentarista João Moreira Salles, criador e publisher da revista Piauí, de cuja relevância em nosso farto mas fútil mercado editorial só poucos talvez ainda duvidem. Ela difere das demais pela abrangência de seus interesses, por sua congênita incompatibilidade com a falta de imaginação e a superstição, cada vez mais generalizada, de que até as pessoas que apreciam ler preferem textos curtos e de fácil deglutição. Apesar de alertado pelo editor de um importante jornal de que um projeto com o perfil da Piauí não conseguiria mais do que 5 mil leitores, João foi em frente - e está prestes a pôr nas bancas e livrarias o 15.º número da revista. Para, no mínimo, 36 mil leitores.Com uma venda média em banca de 20 mil exemplares, mais 16 mil assinantes em carteira, é um fenômeno editorial, com um índice de reassinaturas 4% acima do registrado pelas revistas da editora Abril.A esse pequeno e bravo contingente de publicações civilizadoras acaba de juntar-se mais um título: a versão brasileira de Granta. Empreendimento da Alfaguara/Objetiva, ainda não é o que para ela planejam: uma revista-livro (remotamente parecida com o Livro de Cabeceira do Homem, cria da Civilização Brasileira nos anos 60) com 60% de material traduzido (recente e passado) e 40% de produção brasileira. Seu número de estréia (402 páginas, R$ 47,90, mas já por R$ 38,32 na Livraria Cultura) é a tradução completa do n.º 97 da Granta original, lançada em maio deste ano, com ''''os melhores jovens escritores norte-americanos''''.Leitura indispensável para os neurônios mais exigentes, Granta filia-se à mesma linhagem editorial de Salmagundi, Paris Review, Esprit, Grand Steet, Lingua Franca, New York Review of Books, London Review of Books, n+1, para ficarmos só entre as publicações vivas ou recentemente desaparecidas (casos de Grand Street e Lingua Franca). Já seria um luxo tê-la entre nós apenas traduzida, até porque em suas páginas brilhou (e ainda cintila) a fina flor da literatura e do jornalismo mundial, de Gore Vidal a Elias Canetti, passando por Susan Sontag, Gabriel García Márquez, Vargas Lllosa, Primo Levi, J.M. Coetzee, Camilo José Cela, Joan Didion, Ryszard Kapuscinski, Ivan Klima, Leonardo Sciascia, Simon Schama, Georges Perec, Amartya Sen, Ricardo Piglia, e uma porção de autores africanos e asiáticos, desconhecidos por estas bandas. Até fotos de Sebastião Salgado ela já publicou.Contos, relatos, perfis, memórias, romances em andamento, experiências autobiográficas - é variadíssima a gama de gêneros e assuntos acolhida pela revista, que, desde a estréia, também tem servido de trampolim para dezenas de autores, sobretudo de língua inglesa, que para o anonimato jamais retornaram. Pelo menos 12 deles já conquistaram os dois principais galardões literários do Reino Unido, o Man Booker Prize e o Whitbread Prize.Ian McEwan já publicara dois livros (First Love, First Rites, premiado em 1975, e The Cement Garden, adaptado ao cinema) quando estreou nas páginas de Granta, mas, salvo engano, Salman Rushdie e Kazuo Ishiguro podem ser considerados revelações da revista; assim como Gautaru Malkani (que depois estouraria com Londonstani), Steven Hall (autor de Cabeça Tubarão, recém-traduzido pela Cia. das Letras), C.J. Sansom (de quem a Record já publicou três obras), Jon McGregor (cujo romance Se Ninguém Falar de Coisas Interessantes foi lançado há quatro anos pela ARX), Louise Welsh (autora de O Quarto Escuro, editado pela Girafa), Susanna Clarke, Naomi Alderman (Disobedience), etc. Todos eles integravam uma das periódicas listas de ''''melhores escritores'''' que a revista adora e muito bem sabe confeccionar, com ênfase em talentos com menos de 40 anos de idade e nenhuma obra impressa.Já se amparava numa lista o primeiro número de Granta, impresso em setembro de 1979. Entre os ''''novos escritores norte-americanos'''' dignos de realce na época, Sontag, John Hawkes, Joyce Carol Oates, William Gass, Donald Barthelme e Paul Auster. O segundo número sairia seis meses mais tarde, e o terceiro, um ano depois. Periodicidade estável, só a partir do sexto número, sobre a dobradinha literatura & política.Desde 1983 que, a cada dez anos, os melhores e mais promissores autores britânicos ou residentes na velha e pérfida Albion são brindados com uma edição especial. Os norte-americanos mereceram outra, antes desta que a Alfaguara/Objetiva está lançando; mais precisamente no verão de 1996, só com escritores com menos de 40 anos. Onze anos atrás, os balzaquianos bambas da nova literatura dos EUA eram Ethan Canin, Lorrie Moore, Jonathan Franzen, Madison Smartt Bell, Jeffrey Eugenides, arautos da ressurgência de um ''''realismo social'''' que nada tinha a ver com o experimentalismo pós-moderno de Hawkes, Barthelme e John Barth.Os de agora têm menos de 35 anos e formam uma composição multiétnica: são americanos de sangue russo, chinês, tailandês, peruano; alguns, filhos da terra, outros, imigrantes. Dos 21 selecionados, sete ainda não publicaram livros. Entre os conhecidos (e editados no Brasil), Jonathan Safran Foer (Tudo Iluminado, Rocco) e sua mulher Nicole Krauss (A História do Amor, Cia. das Letras), Dara Horn (O Mundo que Virá e Feras de Lugar Nenhum, Nova Fronteira), Maile Meloy (Santos e Mentirosos, Nova Fronteira), Gary Shteyngart (O Pícaro Russo, Geração Editorial). Dos inéditos nestas bandas, os mais prestigiados são Z.Z. Packer (habitué da New Yorker), John Wray (cujo Lowboy sairá pela Cia. das Letras) e Rattawut Lapcharoensap (já na programação da Casa da Palavra, com Um Porco Chamado Clint Eastwood).Na introdução ao volume, Ian Jack, editor da revista desde 1996 (já passou o bastão a David Graham), lastima a ausência de humor nos autores selecionados (''''São 21 Apolos, nenhum Dionísio''''), sem querer acreditar que a sisudez, o ceticismo e a morbidez da maioria sejam uma conseqüência do 11 de setembro. Jack também lamenta que um ficcionista como Joshua Ferris tenha ficado de fora; com o que concordo totalmente, já que Then We Came to the End foi um dos mais divertidos romances que li este ano.Há uma fixação generalizada em mortes, perdas, pestilências e pequenos desastres pessoais (procriativos, inclusive). Quatro contos, a meu ver, se destacam: Os Diários de Lenny Abramov, trecho de um romance em andamento de Gary Shteyngart (russo de Leningrado criado em Nova York, de quem a Rocco vai traduzir o elogiadíssimo Absurdistan); Aquela Primeira Vez, de Christopher Coake; Periquitos, de Kevin Brockmeier; e Procriar, Gerar, de Anthony Doerr. À exceção de Shteyngart, nenhum nasceu e vive em grandes centros urbanos. Coake é de Indiana, mora em Reno e dá aulas de criação literária na Universidade de Nevada. Brockmeier vive até hoje em Little Rock, no Arkansas, de onde saíram o casal Clinton e aquelas duas cavadoras de ouro de Os Homens Preferem as Louras. Doerr nasceu em Cleveland (Ohio) e mora em Idaho.Shteyngart até que tem o seu lado ''''dionisíaco''''. Seu niilismo é quase tão engraçado quanto o de Woody Allen e outros gaiatos de origem judaica. Eis como ele inicia o diário de Lenny Abramov, num 1.º de junho, passado em Roma:''''Querido Diário,Hoje tomei uma decisão muito importante: eu nunca vou morrer.Os outros vão morrer à minha volta. Eles serão nulificados. Não vai restar nada da personalidade deles. O botão de luz vai ser desligado. Suas vidas, sua integridade, serão marcadas por lápides de mármore brilhante exibindo resumos totalmente falsos (''''sua estrela brilhou intensamente'''', ''''nunca será esquecido'''', ''''ele gostava de jazz''''), e então também elas se perderão em uma inundação costeira ou serão feitas em pedaços por algum tipo de peru geneticamente modificado do futuro.Nulificados. Todos desaparecidos para sempre. Não deixe que lhe digam que sua vida é uma viagem. Uma viagem é quando você vai parar em algum lugar. Quando tomo o trem número 6 para ser atendido pelo meu podólogo, isso é uma viagem.''''Granta, que além do mais transformou-se numa editora de livros de apurado gosto, é herdeira de outra publicação, The Granta, periódico dos estudantes da Universidade de Cambridge, fundado em 1889 e editado por, entre outros, R.C. Lehmann (futuro colaborador da legendária revista humorística Punch) e Eric Hobsbawm (nos anos 30). Em suas páginas debutaram Sylvia Plath, Michael Frayn e Ted Hughes. Tradição, pois, é coisa que não lhe falta. O nome veio do rio Cam, que atravessa Cambridge, em priscas eras chamado Granta. Combalida pela apatia de outras gerações de universitários e por sérias dificuldades financeiras, quase desapareceu, ressurgindo em 1979, como um nicho exclusivo para novos autores e novas formas de escrever, por obra de Bill Buford, que à frente da empreitada ficou 16 anos. Buford é o autor de Entre os Vândalos e Calor, ambos traduzidos pela Cia. das Letras.Ao contrário da matriz britânica, que passou a trimestral a partir de dezembro de 1982, a Granta brasileira será semestral. O segundo número sairá entre abril e maio de 2008, com outro tema caro à revista (viagem), que por três vezes o explorou nos últimos seis anos. Título provisório: ''''Bem longe daqui.'''' Além dos ''''importados'''', teremos Arnaldo Jabor descrevendo a primeira viagem de ácido que fez, nos anos 70, em Arraial do Cabo, no litoral fluminense; Ignácio de Loyola Brandão discorrendo sobre um país imaginário; e Fernando Gabeira, com um relato inédito sobre suas andanças no exílio. Outros mais, ainda não escolhidos, fecharão os 40% de nativos acordados com a Granta britânica.

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