Revisionismo e reedições em ano fértil

O chileno Bolaño foi redescoberto e ensaios sobre arte ganham mais espaço

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

26 de dezembro de 2008 | 00h00

Num ano em que a bossa nova ficou cinqüentona, a imigração japonesa completou 100 anos e o Brasil rememorou os 200 anos da chegada da família real, além do quarto centenário do padre Antonio Vieira e o centenário de morte de Machado de Assis, parece natural que as editoras pautassem seus lançamentos em cima dessas efemérides, não esquecendo as 40 primaveras do maio de 1968, o ano em que todos viveram em perigo. Desnecessário dizer que 2008 foi um ano de revisionismo e muitas reedições - não só por conta das comemorações, mas por causa de um recente fenômeno, o das novas traduções de obras clássicas apresentadas em edições de luxo e caixas especiais.É o caso, por exemplo, de Moby Dick, de Herman Melville (Cosac Naify, 656 págs., R$ 99), versão definitiva da obra-prima do escritor norte-americano que exigiu o consórcio de dois tradutores (Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza)e uma exaustiva pesquisa para recuperar resenhas e estudos publicados na época do lançamento. A editora fez o mesmo com pelo menos outros dois livros lançados este ano, Satíricon, de Petrônio (tradução de Cláudito Aquati, 267 págs., R$ 59)), e Três Vidas, que reúne três novelas da escritora vanguardista norte-americana Getrud Stein (tradução de Vanessa Bárbara, 248 págs., R$ 46). A Cosac Naify, que começou há dez anos produzindo livros de arte, publicou este ano mais literatura - de ótima qualidade, como comprovam o recente lançamento de Nos Penhascos de Mármore, de Ernst Jünger (tradução de Tercio Redondo, 200 págs., R$ 49) e o novo livro do argentino Alan Pauls, História do Pranto (tradução de Josely Vianna Baptista, 88 págs., R$ 29). De qualquer modo, um livro de arte que se destaca entre os publicados pela editora é o do crítico norte-americano Leo Steinberg, Outros Critérios (tradução de Célia Euvaldo, 296 págs., R$ 79), 13 ensaios produzidos entre 1955 e 1972 que cobrem o período mais produtivo da arte nos EUA no século passado.A publicação de ensaios sobre arte ganha cada vez mais espaço no mercado editorial com obras bem cuidadas como Uma Nova História da Arte, de Julian Bell (Martins Fontes, tradução de Roger Maioli, 496 págs., R$ 115), e New Art City, do norte-americano Jed Perl (Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares, Vera Maria Pereira, 712 págs., R$ 89). Bell, um historiador de arte que também é pintor, adota uma perspectiva global para cruzar estilos e influências artísticas do Ocidente e Oriente. Perl, em seu livro, conta como Nova York virou a meca da arte moderna nos anos 1950, graças aos artistas do expressionismo abstrato.Por essa época, a bossa-nova dava os primeiros passos no Brasil, sendo lançada oficialmente em 1958 com um disco de João Gilberto. O crítico Zuza Homem de Mello conta toda essa história com depoimentos dos inventores do gênero (Jobim, inclusive) e 27 nomes importantes da MPB em Eis Aqui os Bossa-Nova (WMF - Martins Fontes, R$ 37,50). A mesma editora responde pelo mais provocativo lançamento de filosofia deste ano, Contra-História da Filosofia, o primeiro (R$ 49,80) e o segundo (R$ 52,50) volumes de uma série escrita pelo francês Michel Onfray, cuja pregação anti-religiosa tem feito barulho na Europa.Na área de literatura estrangeira, o grande barulhento foi mesmo o chileno Roberto Bolaño (1953-2003), descoberto após sua morte pelos americanos, que o elegeram o escritor da temporada pelo livro 2666, lido por todos os escritores que importam em Nova York, da jovem Nicole Krauss à veterana Cynthia Ozick. A Companhia das Letras acaba de lançar dele Amuleto (tradução de Eduardo Brandão, 136 págs., R$ 33), a homenagem de Bolaño a todos os poetas mexicanos e exilados políticos latinos, contada em primeira pessoa (fictícia) por uma sobrevivente (a única narradora mulher de sua obra) da invasão do campus de uma universidade mexicana em1968.O ano de 1968 foi lembrado em diversos livros, mas basta citar dois que se destacam entre os vários títulos: Em 68, que reúne três ensaios sobre o movimento de estudantes em Paris, Praga e México pelo premiado mexicano Carlos Fuentes (Rocco, tradução de Ebréia de Castro, 160 págs., R$ 25), e 1968: Eles Só Queriam Mudar o Mundo, de Regina Zappa e Ernesto Soto (Zahar, 312 págs., R$ 44).Ainda no campo das efemérides, o centenário da imigração japonesa no Brasil trouxe na esteira novas traduções de Kawabata (A Dançarina de Izu), Nagai Kafu (Crônica da Estação das Chuvas), Eiji Yoshikawa (Musashi) e outros autores consagrados como Natsume Soseki, de Eu Sou um Gato (tradução de Jefferson José Teixeira, 488 págs., R$ 62), todos publicados pela Estação Liberdade. Soseki destaca-se pela originalidade, ao adotar um gato como narrador. Depois de não comer nem o pão que o diabo amassou, o felino é adotado por um professor de péssimo humor e ainda vira um crítico da intelectualidade japonesa da era Meiji.O território ficcional andou ocupado não só por japoneses. O alemão W. G. Sebald , que morreu em 2001, aos 57 anos, passou a ser publicado aqui pela Companhia das Letras, que já colocou dois livros excepcionais do autor no mercado: Austerlitz e Vertigem, dois frutos de um escritor que falava do passado da Alemanha sem falso sentimentalismo ou, para ser sebaldiano, sem intimidade com os mortos. A mesma editora respondeu por outros lançamentos excepcionais de literatura estrangeira, entre eles dois livros de Philip Roth (Fantasma Sai de Cena e Entre Nós, este último uma reunião de ensaios e entrevistas com grande romancistas, de Primo Levi a Saul Below, passando pelo checo Ivan Klíma).A literatura brasileira ganhou espaço e visibilidade, impulsionada por prêmios literários, a começar pelo grande premiado Cristóvão Tezza (O Filho Eterno, Editora Record, 223 págs. ,R$ 34, que faturou o Jabuti, o Portugal Telecom e o prêmio São Paulo, entre outros). Dos lançamentos nacionais também merecem destaque os livros: Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito (Alfaguara, 236 págs., R$ 34,90), O Santo Sujo, de Humberto Werneck (Cosac Naify, 400 págs., R$ 55), Acenos e Afagos, de João Gilberto Noll (Record, 208 págs., R$ 32) e Ó, de Nuno Ramos (Iluminuras, 289 págs., R$ 44). Entre os autores da nova geração, cabe lembrar o nome de Carola Saavedra (Flores Azuis, Companhia das Letras, 168 págs., R$ 36), que, apesar de ter nascido no Chile, é brasileira desde os 3 anos de idade.No ano do centenário de morte de Machado de Assis, o lançamento de Machado de Assis - 1935-1958, de Augusto Meyer (José Olympio, 192 págs., R$ 28), que traz ensaios do grande especialista, destaca-se entre muitos e muitos bons livros sobre o bruxo de Cosme Velho, redescoberto em campos onde não era considerado um craque, como no teatro (Machado de Assis: Do Teatro, organizado por João Roberto Faria, Perspectiva, 680 págs., R$ 92). Entre as traduções, a de maior fôlego foi a de Os Irmãos Karamázov (Editora 34, tradução de Paulo Bezerra, dois volumes, R$ 98 ). É um tratado moral tão forte quanto os sermões de padre Vieira, lembrado em várias edições (entre elas Padre Antônio Vieira: um Esboço Biográfico, de Clóvis Bulcão, José Olympio Editora, 294 págs., R$ 35), assim como a chegada família real brasileira em 1808, que teve em Dicionário Joanino, de Ronaldo Vainfas e Lúcia Bastos (Objetiva, 464 págs., R$ 89,90), uma contribuição original sobre o Brasil do tempo do Império.

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