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Retrospetiva reúne 70 obras do pintor e escultor Ernesto de Fiori

Há 80 anos ele desembarcou no Brasil, construindo aqui uma carreira notável, da qual a Galeria Almeida e Dale faz um balanço a partir de terça, dia 9

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2016 | 03h00

Há exatamente 80 anos, no início de agosto de 1936, o escultor italiano, naturalizado alemão, Ernesto de Fiori (1884-1945) veio ao Brasil visitar sua mãe, Maria Unger de Fiori, e seu irmão mais velho, o médico Mário de Fiori, ambos residentes em São Paulo. Desiludido com o rumo político que a Alemanha tomava sob o comando de Hitler, De Fiori decidiu se estabelecer na cidade, tendo uma recepção calorosa de críticos como Mário de Andrade e Sérgio Milliet. Em sua homenagem, a Galeria Almeida e Dale abre na terça-feira, 9, a retrospectiva Ernesto de Fiori: Tensão e Harmonia com a curadoria de Denise Mattar.

A curadora independente, que já assinou mostras de Volpi, Di Cavalcanti, Bonadei e outros modernos na galeria, conseguiu reunir um número expressivo de obras que tratam basicamente de todos os temas abordados por De Fiori em sua obra, além de um filme de curta-metragem, Schaffende Hände (Mãos Criadoras), rodado na Alemanha em 1926 pelo diretor Hans Cürlis, que mostra o escultor em atividade – raro documento de um artista reconhecido naquele país e disputado, a ponto de ter feito o busto da mais popular atriz alemã da época, Marlene Dietrich, uma de suas namoradas, dizem.

O busto de Marlene (de 1931) ficou em seu ateliê berlinense quando ele abandonou a Alemanha, sendo posteriormente comprado pela Nationalgalerie de Berlim. Para compensar, há na exposição um busto de outra diva do cinema, Greta Garbo, que o colecionador paulista Ladi Biezus emprestou para a mostra. O busto de Garbo (que ele fez de memória, em 1937) foi uma das primeiras obras realizadas em São Paulo ao lado do retrato do poeta e jornalista Menotti del Picchia (1892-1988), colaborador do Estado.

Fato raro para uma exposição retrospectiva numa galeria, a mostra tem uma escultura de grandes dimensões (mais de 2 metros de altura) que De Fiori fez na Alemanha, Homem Andando (1921), pertencente ao marchand e colecionador Paulo Kuczynski. Há ainda na exposição outros exemplares raros, como a escultura Maternidade (1938), uma das obras que De Fiori submeteu ao ministro de Getúlio Vargas, Gustavo Capanema, quando estava sendo construído o Ministério da Educação no Rio de Janeiro. O escultor apresentou várias versões dessa e outras duas outras figuras, também na mostra, O Brasileiro (ou Atleta Em Repouso, 1938) e Mulher Reclinada (1938).

Os três projetos de Ernesto De Fiori foram recusados – Capanema não teria aprovado um “homem brasileiro” sentado, como o escultor o representou. A versão oficial, porém, é que as esculturas do italiano não dialogavam com o projeto arquitetônico moderno do ministério, projeto de Oscar Niemeyer e Lucio Costa com consultoria de Le Corbusier. Costa reconheceu o talento do escultor, mas justificou a recusa de seus projetos alegando que faltavam às obras “o sentido arquitetônico e monumental que interessavam ao ministério”.

Mais tarde, De Fiori, que escrevia bem e colaborava com periódicos alemães, italianos e brasileiros – especialmente o Estado –, redigiria um texto agudo sobre a monumentalidade (Os Monumentos, 1941), criticando o uso da escultura pelo poder, modo de contestar a posição ambígua de Capanema, que queria um monumento capaz de traduzir visualmente o homem brasileiro do futuro – inclusive com a ajuda de geneticistas, isso à beira de um conflito mundial e do extermínio em massa na Alemanha

De Fiori, antinazista que (não por culpa sua) foi filmado por um cineasta depois cooptado pelo nazismo (o citado Hans Cürlis), não iria mesmo se submeter à lógica eugenista do Estado Novo, que flertou abertamente com o regime hitlerista – há na mostra uma caricatura do Führer, prova contundente da oposição do artista ao ditador.

Nascido em Roma e descendente de mãe austríaca, De Fiori herdou o sobrenome do pai italiano. Passou a juventude viajando pela Europa e retratando figurões da política (Hindenburg, ex-presidente da Alemanha, entre outros) e da sociedade – seu marchand foi o influente Alfred Flechtheim (1878-1937), que teve acervo e galeria confiscados pelos nazistas.

De Fiori, ao desembarcar no Brasil, passou algum tempo desanimado. Nos anos 1930, o modernismo brasileiro já era passado e a arte engajada ditava as regras no ambiente artístico. Dois escultores dominavam o cenário: Brecheret e Bruno Giorgi. Encomendas públicas eram raras. Foi sobretudo a pintura que lhe permitiu sobreviver nesses tempos. “No entanto, entre 1936 e 1939, predominou a produção escultórica, enquanto nos anos 1940 há uma ascensão da pintura em sua obra”, observa a curadora. A crítica paulistana, lembra Denise Mattar, “não recebeu bem a produção pictórica do artista, talvez por sua força e qualidade inovadoras, muito distante do que era entendido no período como boa pintura”.

De Fiori, no começo da carreira, chegou mesmo a pensar que não poderia ser pintor, depois de ver Cézanne em Paris (em 1911). Passou por um período depressivo até ser reconduzido à arte pelo escultor suíço Hermann Haller (1880-1950), cuja influência é nítida na obra tridimensional de Ernesto De Fiori. Ver Cézanne e continuar pintando é mesmo um ato de coragem. E talento. Há na mostra 50 exemplos de boa pintura expressionista, de pinceladas rápidas.

A figura humana, assim como na escultura, é predominante nas telas e nos desenhos. Há na mostra desde as pinturas simbólicas com São Jorge e o dragão (a luta do bem contra o mal) até as marinhas que tanto impressionaram Volpi, passando por cenas mundanas em que a mulher, como sempre em sua obra, reina soberana.

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