WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Retrospectiva promove um mergulho em 35 anos de criações de Nelson Felix

Sedutora e paradoxal, obra do artista visual estará em mostra da Estação Pinacoteca

Maria Hirszman, Especial para O Estado de S. Paulo

17 de abril de 2015 | 03h00

São 15 esculturas e instalações, muitas de grande porte, 8 vídeos e dezenas de desenhos que, a partir deste sábado, 18, permitirão ao visitante da Estação Pinacoteca realizar um mergulho de fôlego na obra sedutora, paradoxal e contundente de Nelson Felix. 

Em ação desde 1980, quando inaugurou sua primeira mostra de desenhos, o artista carioca vem desenvolvendo ao longo de mais de três décadas uma das mais densas pesquisas em arte contemporânea do País.

Sua obra é de um rigor formal impressionante, ao mesmo tempo em que aborda e mescla questões fundamentais como o sexo, a ciência e a religião. Retoma de forma quase obsessiva materiais, procedimentos e métodos. Seja lidando com o clássico mármore de Carrara, seja atuando no campo intangível dos conceitos, situando suas ações em escala planetária e abstrata ou extraindo o que há de poético e sintético nos espinhos do cacto e na defesa ao toque das dormideiras, Felix promove - nas palavras do amigo e curador Rodrigo Naves - uma imantação das coisas do mundo. Simultaneamente cartesiano e mago, a arte é para ele disciplina intelectual e ação física, meditação e linguagem, em busca de algo que, segundo suas palavras, seja capaz de “detonar o olho e a mente”.

Avesso a qualquer tentativa de normatização, Nelson Felix cedeu finalmente à tentação de revisitar sua produção numa ampla exposição. Apesar de ser indiscutível o caráter retrospectivo da mostra, bastante representativa dos múltiplos caminhos de pesquisa trilhados pelo artista nos últimos 35 anos, o artista conseguiu a proeza de usar esse fascinante processo de revisita ao passado para reinventar caminhos, promover encontros e reembaralhar as cartas - e trabalhos -, de forma a extrair novos sentidos e conteúdos de poéticas já existentes.

A primeira obra, que recebe o visitante ainda no térreo do museu, já sinaliza esse processo de recombinação de diferentes elementos escultóricos, formais ou conceituais. Trata-se de uma peça complexa, na qual estão reunidos elementos importantes da história de Felix: as grandes esculturas de mármore, que remetem à arte clássica e trazem elementos internos e estruturais do corpo (como o osso do calcanhar de Aquiles e o osso occipital, representando os pontos extremos da coluna humana e que ele já mostrou anteriormente, ainda no início dos anos 2000), os cactos e as dormideiras, plantas que têm presença importante na trajetória do artista. Intitulada Eu vi a América com os Olhos d’Ele, a peça expõe de forma imediata e contundente a importância dos contrastes, a sutil sintonia entre contrários, o caráter tentacular de sua produção. Segundo Rodrigo Naves, curador da mostra e interlocutor constante do artista há pelo menos duas décadas, é exatamente nessas combinações paradoxais, nesse trânsito entre matéria e espírito, entre afirmação e dúvida, entre força e astúcia, que reside a potência da arte de Felix.

É possível ver essa exposição como um processo cuidadoso de repertoriar as principais questões, materiais ou estratégias trabalhadas pelo artista ao longo das últimas décadas, como num curioso processo de composição musical. Lá estão diversos conjuntos de desenhos, testemunhando o que Naves define por “habilidade gráfica incomum”; as primeiras esculturas feitas por Felix em meados dos anos 1980 e diversas das peças monumentais criadas por ele, como a excepcional escultura Vazio Sexo, que foi reconstruída após ter sido destruída durante transporte para uma exposição internacional. Trata-se de um cubo reticulado e vazado, que contém dentro de si outro cubo idêntico, num jogo ao mesmo tempo rigoroso e disruptor da ordem precisa das formas geométricas. Esculpidas durante meses pelo artista em um único grande bloco de mármore de Carrara, a peça é sutilmente descolada de sua posição natural por um pequeno calço de metal, na verdade um molde de prata de uma vagina.

Um tanto incomodado pela presença hegemônica de peças tridimensionais, Felix se justifica: “O pensamento precisa de algo para se materializar e o meu caminho é a escultura”. 

Uma maneira encontrada pelo curador e pelo artista de driblar o peso das obras tridimensionais no conjunto da exposição e de diminuir a hegemonia impactante do mármore - e sua inevitável remissão ao clássico - foi a decisão de incluir trabalhos praticamente impossíveis de materializar num espaço expositivo na exibição de um conjunto de oito vídeos documentais. Eles mostram o processo de criação de trabalhos intangíveis, por sua escala, distância e efemeridade - como as quatro intervenções reunidas sob o sugestivo título de Cruz na América - e que constituem uma espécie de núcleo central da exposição. Entre documento visual e criação poética, esses filmes servem como chave de acesso aos sistemas que Felix foi impondo a si mesmo e detonam todo seu pensamento plástico e poético. 

Diante das fotografias que realizou no Deserto do Atacama, com a câmera regulada de acordo com o ritmo de batidas de seu coração, que constituem um dos quatro eixos do gigantesco projeto em forma de cruz, com intervenções nas quatro pontas de um cruzeiro imaginário desenhado sobre a América Latina, Felix explicita a necessidade de criar regras, estabelecer sistemas internos que garantam coesão e sentido a sua arte: “Tem que ter uma razão, mesmo que irracional. Na verdade, quanto mais irracional melhor”, conclui.

NELSON FELIX 

Estação Pinacoteca. Largo General Osório, 66; 3335-4990. 3ª a dom., 10 h/ 18 h. R$ 6 (grátis aos sáb.). Até 28/6. Abertura sáb., 18, às 11 h
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