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Retrospectiva lança um outro olhar sobre Willys de Castro

Mostra sobre o artista neoconcreto, que criou o "objeto ativo", relaciona a sua obra visual com a escrita musical

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

26 Março 2015 | 03h00

O artista mineiro Willys de Castro (1926-1988) foi um homem renascentista. Químico de formação, exerceu várias atividades – artista gráfico, poeta, cenógrafo, designer de tecidos, compositor – antes de ficar conhecido como artista plástico vinculado ao movimento neoconcreto, assim batizado em 1959 para diferenciar os seguidores dessa corrente, liderada pelo poeta e crítico maranhense Ferreira Gullar, dos artistas reunidos em torno do concreto paulista Waldemar Cordeiro (1925-1973). Criador do “objeto ativo”, que ele mesmo definiu como uma obra caracterizada por sua “autonomia e unicidade”, Willys de Castro é homenageado na retrospectiva Múltipla Síntese, que será aberta nesta quinta-feira, 26, às 19 horas (para convidados), e sexta, 27, para o público, na Galeria Almeida e Dale, seguindo o modelo de mostras anteriores da galeria dedicadas a grandes nomes da arte brasileira (Bonadei, Guignard e Volpi).

A curadora da mostra é a mesma dessas três exposições, Denise Mattar, que selecionou obras de diversos períodos, desde as iniciais, contemporâneas da 1.ª Bienal de São Paulo (1951) e fortemente marcadas pelo abstracionismo de Flexor, até os trabalhos finais, “pluriobjetos” realizados em 1988, ano da morte de Willys. Tanto os objetos ativos como os pluriobjetos exigem do espectador um olhar atento para acompanhar o monumental esforço do artista – ele diria utópico – em “criar a pura obra de arte sem deixar vestígios do objeto”.

Willys lida com o problema da percepção do objeto como se plano, volume e espaço fossem palavras vagas para conter um trabalho que, visto de ângulos diferentes, ativa o olho como a música conquista os ouvidos, transformando-se não num ilusionista exemplar da op art, mas numa verdadeira peça interativa. Em termos idealistas, o objeto ativo abdica de sua condição de mero suporte da pintura para se integrar ao ambiente numa interdependência criadora. 

Tão forte era a relação de Willys com a música que a curadora Denise Mattar instalou na galeria dois postos próximos para quem quiser conhecer a obra de câmara do compositor (Policromos, composta em 1951 para o quarteto Haydn e interpretada pelo Quarteto Aureus em 1999) e as partituras de verbalização que ele escreveu para poemas de outros concretos (Ferreira Gullar, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos). 

Da mesma forma que o barítono Willys, aluno do maestro alemão Koellreuter (1915-2005), deu nova forma (musical, abstrata) aos poemas concretos, ele rompe com a superfície bidimensional da tela ao criar os objetos ativos, que não são pinturas nem esculturas, mas ambas as coisas, peças de madeira que, fixadas perpendicularmente à parede, expandem seu território cromático, tornando cor e forma irmãs siamesas.

Os objetos ativos foram exibidos por ocasião da segunda exposição de arte concreta realizada no MEC, Rio, em 1960. Eles constituem a maioria entre os 32 trabalhos selecionados para a mostra. Os mais antigos são telas em que Willys cria transparências, emulando as composições de Flexor. Da fase embrionária do movimento neoconcreto estão obras de uma série que o autor definiu como “soma entre planos”, óleos sobre tela colada em madeira (veja tela vermelha acima) em que ele tensiona o suporte e rompe com o plano pictórico, avançando no ponto em que Albers interrompe o ritmo expansivo de suas pinturas monocromáticas. “Willys foi um artista do processo, muito mais interessado na pesquisa que na superprodução”, resume a curadora.

MÚLTIPLA SÍNTESE

Galeria Almeida e Dale. R. Caconde, 152, 3882-7120. 2ª a 6ª, 10 h/18 h; sáb., 10 h/14 h. Até 30/4. Abre nesta quinta, 26.

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