Galeria Almeida e Dale
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Retrospectiva de José Pancetti reúne 45 telas essenciais em São Paulo

Exposição na Galeria Almeida e Dale exibe pinturas de todos os períodos da carreira do pintor, conhecido por suas marinhas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2017 | 06h00

Um dos maiores nomes do modernismo brasileiro, o pintor autodidata José Pancetti (Campinas, 1902-Rio de Janeiro, 1958) certamente seria hoje também um dos grandes da arte internacional, como Volpi, se os dois artistas fossem regularmente exibidos lá fora. Pancetti, que ganha, a partir desta terça, 17, retrospectiva na Galeria Almeida e Dale, é ainda menos conhecido que Volpi no exterior, embora sua presença em importantes coleções brasileiras seja igualmente forte. Prova disso são as 45 telas da exposição, todas de colecionadores particulares, algumas já exibidas em outras retrospectivas do pintor, inclusive naquela realizada há 15 anos, no Museu de Arte da Bahia, com itinerância em outras capitais e organização de Denise Mattar, a mesma curadora da exposição Pancetti – Navegar É Preciso, que começa nesta terça-feira, 17.

Sintética, como a pintura de Pancetti, a retrospectiva cobre com poucas obras todos os períodos de atividade do artista, que, marinheiro, fez de seu ambiente o ponto de partida de uma pintura concisa, autoral. É provável que, se tivesse nascido na Europa, sua trajetória fosse a de um Nicolas de Staël (1914-1955), o russo que adotou a França como porto seguro e fez, no período derradeiro de vida, em Antibes, marinhas diluídas em camadas finas, assim como Pancetti, anunciando a abstração lírica nos mesmos anos 1950. A exemplo dele, De Staël também foi mestre na natureza-morta.

Há, na retrospectiva de Pancetti na Almeida e Dale, telas de um cromatismo vibrante que remete às naturezas de Cézanne, em especial a pintura de menor dimensão na mostra, que, longe de ser uma representação naturalista, revela um entendimento intuitivo das questões formais do francês, para o qual não existia propriamente uma questão de gênero – uma natureza-morta poderia ser o equivalente a um retrato. Também em Pancetti, mangas e frutas cítricas eram apenas pretexto para pintar. Tanto que uma de suas telas na mostra (Janela do Meu Atelier na Bahia, 1951) é um híbrido de natureza-morta e paisagem, com frutas em primeiro plano, uma casa e o mar ao fundo.

Agrupadas em temas, as telas, no entanto, escapam à classificação justamente por esse hibridismo. Uma natureza-morta pode igualmente incorporar um retrato ao lado de uma paisagem ao fundo, como se pode ver numa das telas. E mesmo os autorretratos de Pancetti não são tanto um exercício de autoconhecimento (como os de Rembrandt, por exemplo), mas uma maneira de promover novas experiências formais e cromáticas – o autorretrato reproduzido nesta página, de 1936, revela o impacto de uma viagem a Paris dois anos antes, evocando impressões cubistas.

“A grande mudança na pintura de Pancetti, porém, acontece quando ele faz sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro (1945) e é reformado da Marinha (1946)”, observa a curadora Denise Mattar, apontando como exemplo desse ‘turning point’ uma pequena marinha de 1947 com duas figuras na diagonal e um céu rosáceo com nuvens carregadas, que antecipa as marinhas que assinaria após sua mudança para a Bahia, em 1950. “Depois disso ele vai ‘limpando’ o trabalho, eliminando elementos que lhe parecem excessivos e chegando a uma síntese que é quase abstração”, conclui a curadora.

Essa limpeza formal foi também destacada por outro crítico, Frederico Morais, que comparou a pintura de Pancetti a um convés de navio, “curtido de sol e sal”, uma pintura “que não enferruja, honesta, limpa, econômica, direta, austera, quase seca, mesmo quando a cor se expande e o gesto abriga a emoção”. Ainda que o cromatismo de Pancetti fique mais intenso, na época em que o pintor fixa residência em Salvador, em 1950, a construção formal é sintética, eliminando o supérfluo. Foi, aliás, nesse ano, que Pancetti marcou presença na Bienal de Veneza, um ano antes de participar da primeira edição da Bienal de São Paulo (1951).

Existe na pintura de Pancetti uma conexão direta entre sua experiência existencial e o mundo concreto. Sem formação acadêmica, um marinheiro de hábitos simples, Pancetti dizia que pintava o real, que perseguia a representação desse mundo. Uma tela de 1946, logo à entrada da galeria, que representa a Ilha das Enxadas (1940), atesta esse compromisso. Ao mesmo tempo, há um impasse, pois o olhar de Pancetti é intermediado pela recorrência à memória – esse é um olhar oblíquo, sonhador, em plongée, que mergulha na paisagem. “É o olhar de um marinheiro, que vê o mundo do convés do navio”, define a curadora Denise Mattar, mostrando como a organização formal de suas telas segue menos um esquema rígido e mais uma proposta lírica.

Há várias provas disso na exposição, mas as paisagens de Campos do Jordão dos anos 1940 resumem a questão. Ele conheceu a cidade ao ganhar o prêmio de viagem ao estrangeiro do Salão Nacional de Belas Artes e trocá-lo por um tratamento para sua tuberculose em 1942 – Pancetti era fumante inveterado. Também são dessa época as paisagens de São João del Rey, em Minas, que conservam algo de guignardiano em sua composição. De uma família pobre, Pancetti jamais pretendeu ser moderno. Ele simplesmente foi.

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