Retrospectiva de Mira Schendel resume 34 anos de atividades da artista

Obras multifocais da suíça naturalizada brasileira estão expostas na Pinacoteca

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2014 | 02h00

A foto abaixo mostra uma obra icônica entre as quase 300 em exposição na retrospectiva aberta quinta na Pinacoteca do Estado e dedicada à artista Mira Schendel (1919- 1988), suíça naturalizada brasileira. Nessa tela, Now That I’m Back, um óleo pintado em 1964, os elementos simbólicos que representam a volta do herói Aquiles ao campo de batalha, na Ilíada de Homero, servem, de alguma forma, de testamento visual da relação que a artista manteve a vida toda com a palavra. Ela conduz grande parte das séries selecionadas pela curadora inglesa Tanya Barson, da Tate Modern de Londres, onde a mostra foi exibida no ano passado com grande sucesso de público, seguindo depois para a Fundação Serralves do Porto.

Acrescida de algumas obras pertencentes a colecionadores brasileiros, a retrospectiva, que tem também como curadora Taisa Palhares, da Pinacoteca, cobre 34 anos de produção da artista, desde as naturezas-mortas de matriz morandiana, pintadas quando Mira saiu de Porto Alegre, em 1953, aos trabalhos em acrílica e têmpera sobre madeira da série Sarrafos (1987), que retoma questões presentes em trabalhos mais antigos, inclusive na referida tela que evoca o épico Ilíada.

Em Now That I’m Back, uma seta cruza de forma perpendicular o portal pelo qual devem passar as rodas da carruagem de Aquiles, arrastando o corpo de Heitor como vingança por ter matado seu amigo Pátroclo. Da mesma forma que Aquiles passa da contenção à cólera no épico de Homero, o sarrafo negro que sai da têmpera branca na série Sarrafos funciona como uma espécie de indicador vetorial que sugere tanto uma rota de passagem suave como uma queda violenta no espaço do indiferenciado, projetado para fora do plano pictórico.

Mira fez esses Sarrafos um ano antes de morrer. É ao mesmo tempo um anúncio fúnebre e a expressão de uma vivência no limite do caótico. Ela, que nos últimos 15 anos de vida adotou as teorias do fenomenólogo alemão Hermann Schmitz como referência, fez da série Sarrafos a síntese de uma carreira em que uma simples reta se transforma em escultura ou um círculo resume sua representação do tempo. O trapézio formado pelas três linhas de Now That I’m Back antecipou em 20 anos as questões formais dos Sarrafos, mas já revela, em 1964, suas preocupações de ordem religiosa. Afinal, na Ilíada, Heitor e Aquiles são antípodas, representando, respectivamente, o crente em Deus e o descrente colérico, direcionado pela razão, não pela fé. Mira viveu a vida inteira esse dilema.

Filha de judeus, ela foi batizada pela mãe e educada num internato católico de Milão. Os valores cristãos guiaram sua educação – e ela não abjurou totalmente essa formação. Ao se estabelecer no Brasil, Mira ficou amiga dos dominicanos, dos poetas concretos (Haroldo de Campos), de cientistas (Mario Schenberg), filósofos (Vilém Flusser) e teóricos do neoconcretismo (o psicanalista Theon Spanudis). Mira queria interpretar visualmente tudo o que discutia em conversas com seus amigos intelectuais. Fez, inclusive, uma tradução visual do Gesang der Jünglinge (Cântico dos Jovens, 1955/56)) de Stockhausen, que está na mostra. De alguma maneira, a complexidade do espaço musical na peça do compositor alemão, primeira obra-prima da música eletrônica, é reduzida a uma frase, Preist der Herrnn (Bendizei o Senhor) nessa têmpera sobre juta de 1963, em que Mira esboça um poema concreto com as palavras kalter (frio), starrer (rígido) e winter (inverno) e escreve Senhor com minúscula (hernn). Não é preciso ir muito longe para deduzir como a notável ausência do Criador invisível está presente nessa obra. Mira, aliás, queria realizar um filme mudo com uma tela inteiramente branca em que, no final, seriam ouvidos sinos ao longe. O máximo que conseguiu foi colaborar com o alemão Robert Darral na produção de um outro filme sobre seus Cadernos, que estão na mostra.

A curadora Tanya Barson manuseia um deles e recomenda uma atenção especial a esses cadernos, mais de 200, produzidos de 1971 em diante, que constituem peças de investigação formal sem palavras, distantes da verborragia que domina suas obras em acrílico ou suas monotipias. Nessas últimas, o movimento da palavra escrita sobre o papel japonês pode evocar tanto um turbilhão alfabético cabalístico como funcionar como elemento gráfico. A retrospectiva presta particular atenção às monotipias, mas praticamente todas as séries de Mira estão representadas.

Relações. A curadora organizou a mostra de maneira que o espectador possa estabelecer relações entre esses trabalhos. “Partimos das naturezas-mortas dos anos 1950, que ainda conservam ligação com o passado italiano de Mira, passamos pelo esboço de uma pintura mais arquitetônica até chegar à abstração geométrica”, observa Tanya Barson, estabelecendo conexões entre trabalhos mais antigos da artista, entre eles uma têmpera de 1954, em que um cubo salta da superfície da tela, e os “sarrafos” de 1987. “A dela é uma obra de caráter cíclico, em que questões filosóficas vão e voltam”, resume.

MIRA SCHENDEL

Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, 2, 3324-1000. De 3ª a dom., das 10 h às 17h30. R$ 6 (5ª, das 17 h às 22 h e sáb. grátis). Até 18/10.

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