JF Diorio/Estadão
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Retrospectiva cobre 70 anos de pintura de Flávio-Shiró

Aos 90 anos, o artista abre hoje, 8, mostra com obras de 1947 até hoje, na Pinakotheke São Paulo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

07 Julho 2018 | 06h00

A pintura de Flávio-Shiró tem algo da controlada distância da câmera do cineasta Kenzo Mizoguchi (1898-1956), já definida como uma força gravitacional onipotente que registra o sobrenatural com lentes voltadas para a realidade – especialmente no filme Contos da Lua Vaga, o preferido do pintor japonês, que está completando 90 anos com invejável lucidez. Flávio-Shiró abre hoje, 8, uma importante exposição retrospectiva na Pinakotheke São Paulo, que acompanha o lançamento de um livro sobre sua obra do crítico Paulo Herkenhoff.

A mostra reúne 26 pinturas, 12 obras em papel, fotografias e pequenos objetos selecionados entre as peças de seu ateliê carioca – ele mora metade do ano no Rio e a outra metade em Paris. A referência a Mizoguchi não deve ser computada exclusivamente à interferência do sobrenatural em suas telas. Há na exposição pinturas que resultam da relação afetiva que ele desenvolveu com filmes de outros gêneros – não só japoneses.

Há, por exemplo, uma grande tela vertical cujo título se refere a um dos mais belos filmes da diretora francesa Agnès Varda, Le Bonheur (As Duas Faces da Felicidade, 1965), cuja fotografia remete às telas do impressionista Bonnard. Nele, Varda explora o antagonismo entre as cores vivas do idílico meio rural e o monocromatismo da arquitetura urbana, algo que um espectador mais atento vai notar nessa tela de Flávio-Shiró. Na pintura, é claro o contraste entre a simplicidade das cores primárias e a ambiguidade dos tons intermediários. Varda, a propósito, conhece a obra de Flávio-Shiró.

Organizada pelo marchand Max Perlingeiro, a exposição da Pinakotheke tem ainda outras referências ao cinema, como a tela Madadayo, evidente homenagem ao último filme dirigido por Kurosawa, em 1993. E não só ao cinema. Uma pintura de 1974 retrata a perturbadora metamorfose de um homem num inseto, descrita no livro homônimo de Kafka. O pintor, a propósito, observa que a presença de monstros em sua pintura é fruto de sua convivência com a cultura literária e cinematográfica japonesa. E brasileira.

“Meu pai resolveu transferir a família para São Paulo, nos anos 1940, temendo que os filhos ficassem incultos no Pará, mas foi a observação da natureza violenta e fascinante da Amazônia que mais marcou a minha pintura”. Uma das telas da exposição, testemunho de sua vivência no meio hostil da selva, traduz essa experiência por meio de uma superfície monocromática chumbo, a própria transfiguração de um mundo desordenado num campo de cor distante da tradição artística mediterrânea.

Por muito tempo essa pintura gestual foi associada pelos críticos ao expressionismo abstrato norte-americano – e alguém poderia ligar, de forma imprudente, essa tela chumbo às pinturas cinzentas de Rothko. Flávio-Shiró, no entanto, confirma que seu gestual reitera a tese de Cláudia Stringari Piassi sobre sua pintura (defendida em 2013): ele não dialoga com os americanos, mas com a arte milenar da caligrafia japonesa. Tem pouco de performático, ao contrário de Jackson Pollock e sua ‘action painting’, e muito a ver com a caligrafia e a literatura do Japão. “Na árvore genealógica de minha família, que ocupa uma folha de 5 metros, tem até uma escritora famosa do século 11, Murasaki Shikibu (autora do Genji Monogatari), conta Flávio-Shiró, filho de artistas – o pai, Massami Tanaka, também pintava e escrevia; a mãe, Aiko, tocava koto.

O visitante da exposição poderá acompanhar, na Pinakotheke São Paulo, a trajetória do pintor desde 1947, quando ele se integrou ao grupo Seibi, até as últimas monotipias, realizadas este ano, obras de grande vigor expressionista. Na década de 1940, ele conviveu com os pintores do grupo Santa Helena (Volpi, Rebolo), mas não teve propriamente um mestre. “Meu pai, que fazia pintura fauvista no Japão de 1920, dizia que um certo autodidatismo era melhor que ser moldado por um professor.” Com uma bolsa, ele foi para Paris e lá, diz, aprendeu pintura copiando Bulgarini e Mantegna no Louvre. “A pintura é arte paciente, discreta, fica à espera do seu olhar”, reflete, lamentando a pressa contemporânea, que dificulta esse acesso.

Ele, que começou sua carreira pintando obras figurativas expressionistas, passando à abstração informal nos anos 1950, resiste a ser rotulado. “Minha convivência com Grassman (Marcello) talvez responda por esse traço expressionista, mais creio que a relação com a Amazônia teve um peso maior nessa história”, arrisca. “Por certo, não poderia ter sido um pintor geométrico, concreto.” Objetos assemelhados a monstros, feitos com carcaças de caranguejos, provam que a natureza foi a fonte primária de sua arte. A secundária foi a contemplação das obras dos velhos mestres nos museus. “Há mais abstração em Van Eyck do que podemos imaginar”.

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