TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Retrospectiva exibe a obra de Marcello Nitsche, 'o mais pop dos brasileiros'

Mostra do artista paulistano no Sesc Pompeia reúne suas importantes criações dos anos 1960 até hoje

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

19 de junho de 2015 | 05h00

No livro Pensando a Arte, de 1988, o crítico e físico Mário Schenberg afirmou que Marcello Nitsche é “o mais pop dos artistas brasileiros”. “Ele disse que eu pegava melhor o espírito de São Paulo e o (Hélio) Oiticica, o do Rio de Janeiro, mas não tinha muita disputa, não. Fizemos até exposição juntos, a Nova Objetividade (Brasileira, de 1967)”, diz Nitsche, aos 72 anos. Criador de emblemáticas obras da década de 1960, como Eu Quero Você (1966) – pintura-objeto que representa uma mão inspirada no “slogan do Tio Sam” a apontar um dedo ensanguentado para o espectador – e o monumental inflável Bolha Amarela (1969), ele tem agora sua produção exibida pela primeira vez em uma retrospectiva.

A mostra Lig Des, aberta nesta sexta-feira, 19, para o público, não poderia ocorrer em outro local que não fosse a área de convivência do Sesc Pompeia, destaca a curadora Ana Maria de Moraes Belluzzo. A antiga fábrica transformada pela arquiteta Lina Bo Bardi em “espaço não convencional de convívio e cultura” contribui, considera, para “atualizar” a vocação urbana dos trabalhos do paulistano Marcello Nitsche.

Sendo assim, logo de início o visitante é recebido pela peça de 1967 que dá nome à exposição – Lig Des é feita de um tubo de chaminé ligado a uma bolha inflável de náilon vermelha enchida por um motor. “É um ready made de uma radicalidade absoluta sobre a automação, a mecanização”, afirma Ana Maria Belluzzo. Ao redor desse trabalho, outras criações do artista datadas dos anos 1960 apresentam sua linguagem pop inicial “totalmente ligada a um universo da cidade e à apropriação de elementos como sinais, a indústria cultural, histórias em quadrinhos, publicidade, coisas relacionadas ao surgimento da sociedade de consumo”, continua a curadora.

Trata-se de uma questão importante na trajetória de Marcello Nitsche. “Acho que os artistas de São Paulo dos anos 60 são diferentes do Rio porque aqui o processo de urbanização foi muito pesado, aqui não tem paisagem”, diz Ana Maria. Segundo a curadora, Nitsche foi diferente dos outros criadores pop de sua geração por sua “preocupação com a tecnologia”.

Mas a retrospectiva, “sintética e pontual”, contempla muitas outras passagens essenciais da carreira do artista, ao mesmo tempo em que exibe o processo de criação de Nitsche por meio de páginas de seus inéditos cadernos (a concepção de suas Bolhas é um destaque), maquetes e vídeos.

Estão em Lig Des os filmes em super-8 de Nitsche (entre eles, Superfícies Habitáveis – Memorial 2, de 1974, feito com Flávio Motta, e Autorretrato, de 1976); suas obras em torno das paisagens (como as costuradas, dos anos 70) e das birutas; a menção às suas esculturas públicas (Garatuja, de 1979, para a Praça da Sé, é das mais importantes); assim como a famosa série das “pinceladas” – “a explosão do quadro”, define a curadora, em coloridas criações de objetos que remetem à “gramática” pictórica – apresentada pela primeira vez em 1981 em uma elogiada exposição na Galeria São Paulo.

Criação do símbolo das Diretas-Já pelo artista é destaque da exposição

Em 1984, o artista Marcello Nitsche participou do movimento pelas Diretas-Já sendo, inclusive, o criador do símbolo em azul e amarelo – que remete a sua série das pinceladas – para a campanha pela democratização no Brasil. A retrospectiva do artista no Sesc Pompeia destaca essa importante passagem política em sua trajetória apresentando, em uma vitrine, o estêncil de papelão usado para estampar o logo nas ruas de São Paulo, o botton e o adesivo das Diretas.

“Trabalhei muito na época pela campanha em São Paulo, fiz todas as pinturas no Anhangabaú, Praça da Sé, no Pacaembu”, diz Nitsche. “Acho importante seu gesto de generosidade de dar o seu trabalho para uma campanha geral”, afirma a curadora Ana Maria Belluzzo.

SERVIÇO:

MARCELLO NITSCHE. Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, telefone 3871-7700. De 3ª a sáb., 10 h/21 h; dom., 10 h/19 h. Grátis. Até 30/8.

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