Retratos de um Brasil profundo em Brasília

Siri-Ará e Ñande Guarani foram os destaques da mostra competitiva

Luiz Zanin Oricchio, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2008 | 00h00

Dois retratos do Brasil profundo ocuparam a tela do Cine Brasília no fim de semana. Siri-Ará, de Rosemberg Cariry, fala, em tom alegórico, da fundação do Estado do Ceará e, por extensão, da nação brasileira. Ñande Guarani (Nós, Guarani), de André Luís da Cunha, revela os problemas de sobrevivência da nação indígena guarani, espalhada por vários países - Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina. Em termos de reação do público, Ñande Guarani foi melhor do que Siri-Ará. O documentário de André Luís da Cunha foi acompanhado de silêncio respeitoso durante a exibição e recebeu longos e calorosos aplausos de um Cine Brasília lotado. Já Siri-Ará sofreu com a debandada de parte da platéia. Mas quem ficou aplaudiu bastante. Deve-se acrescentar que Ñande Guarani jogava em casa, pois André Luís da Cunha é cineasta brasiliense. Mas tem méritos próprios. Bastante simples e convencional, emociona pelos depoimentos dos índios, muito mais que pelas falas dos "especialistas", por bem intencionadas que sejam. A esta altura do campeonato, poderíamos esperar mais de um filme sobre índios, em especial depois de Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, e Terra Vermelha, de Marco Bechis. Em todo caso, André Luís disse que esse, na verdade, foi um trabalho de encomenda, que abraçou com paixão. E deixou-se seduzir pelos índios. "Minha vida mudou depois do contato com os guarani", garante. Em Siri-Ará, seu 8º longa-metragem, o cearense Rosemberg Cariry procura evocar a tragédia fundadora do Ceará, quando dom Pero Coelho, no ano de 1603, sai em busca do Eldorado e enfrenta o sertão, procurando desalojar invasores franceses instalados na Serra da Ibiapaba. Dos mil homens originais, sobram apenas nove. Como não tinha meios para rodar um filme com tantos figurantes, cenas de batalha, etc., Cariry optou pela solução alegórica. Cria o personagem de Cioran (Everaldo Pontes), mestiço que viveu na França e volta ao seu sertão de origem. Guiado por uma índia, topa com grupos de reisado e bandas de pífanos - que representam os grupos antagônicos na história de Pero . As metáforas em cascata, a alegoria, as idas e vindas no tempo - tudo isso desorientou o público, mas o cineasta nega que esse seja um problema. "Quando passo meus filmes para as pessoas do povo, não vejo problemas de compreensão", diz, ele que é admirador da cultura popular. "Para citar Glauber, vejo a cultura do povo em constante rebelião." Cariry detecta a permanência da história na memória coletiva. Uma memória, que, por sua vez, registra uma história de opressão. "Deixo claro que a nossa civilização é construída sobre uma montanha de ossos", diz. Cariry diverge do Movimento Armorial de Ariano Suassuna. "Não quero fazer arte erudita a partir de elementos populares, mas, ao contrário, fazer cinema popular a partir de elementos populares." Se consegue, é outra história.Nota-se que no projeto de Cariry tudo é pensado; cada gesto e ato tem seu significado, como numa missa laica. Cabe discutir o seguinte: esse tipo de estética tem alguma sintonia com o mundo presente ou encontra-se referenciada a uma linguagem dos anos 60 e 70? Para dar legitimidade a esse discurso, evoca-se a sempre disponível figura de Glauber, na suposição de que, se vivo fosse, estaria fazendo filmes como naquela época. O que seria muito improvável, pois era um artista em evolução constante, chegando à ruptura final de A Idade da Terra. Não se pode transformar aquilo que foi revolução permanente em marco regulatório. O repórter viajou a convite da organização do festival

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