Retratos de mulher

Campeão de navegação em barco a vela vai ocupar o espaço da Oca, no Ibirapuera, com as representações do universo feminino que criou nas viagens pelo mundo

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

01 de abril de 2009 | 00h00

Ele é um campeão. Um desbravador dos sete mares. Um quase francês para quem navegar é preciso, mas nem só: pintar também é preciso. Para Titouan Lamazou, um dos nomes do Ano da França no Brasil, não há diferença entre ser artista ou navegador. Em 1990, ele virou celebridade na França ao receber o título de campeão mundial por uma viagem ao redor do mundo, feita sozinho, em barco a vela - antes disso, já havia realizado outras viagens, duas delas com passagens pelo Rio. Aos 17 anos, ele, de família francesa, mas nascido em Casablanca, no Marrocos, largou seus estudos, inclusive o de Belas Artes em Marselha, para viajar pelo mundo, sempre levando consigo os aparatos de artista.   Veja galeria de imagensPintor basicamente desde o primeiro impulso, Lamazou levou em consideração, como diz, uma citação de Delacroix, a de que "o artista deve usar as ferramentas de sua época". Assim, começou a não fazer distinção entre os meios artísticos: pintura, desenho, fotografia e vídeo são utilizados por ele de maneira natural e concomitante. Durante anos, Lamazou se dedicou a tema único: retratar mulheres de todo o mundo, de diferentes raças, classes sociais, idades, etnias e culturas, numa espécie de estetização do trabalho jornalístico e antropológico.Femmes du Monde (Mulheres do Mundo), que Lamazou iniciou em 2001, é grandioso, cheio de números: até 2007, o artista percorreu 15 regiões do planeta; retratou 230 mulheres, o que lhe rendeu 15 mil obras entre desenhos, pinturas, fotografias e vídeos; usou 5 milhões nas viagens; realizou mostra no Museu da Humanidade de Paris, vista por 230 mil visitantes; vendeu, até hoje, 140 mil exemplares de duas edições em livro.Agora, Femmes du Monde chega ao Brasil. Entre 11 de maio e 11 de julho, uma grande exposição, intitulada Mulheres do Planeta, ocupará toda a Oca, no Ibirapuera. Como parte da programação do Ano da França no Brasil, que será oficialmente inaugurado no dia 21 de abril (veja destaques do primeiro mês no quadro abaixo), a mostra de Lamazou, orçada em R$ 2 milhões, apresentará uma seleção de retratos (em fotografias, pinturas, desenhos e vídeos) e depoimentos (pelas palavras das mulheres, recolhidas por meio de questionário, e de textos do artista). O projeto também inclui a itinerância da exposição por outros lugares do País. O Brasil tem destaque em seu trabalho: das 230 mulheres retratadas, 19 são brasileiras. O viajante, aliás, quer fazer uma longa parada no Brasil: pretende se dedicar a um projeto a partir da obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.Em 1998, Lamazou conheceu na ilha de Bali, na Indonésia, a princesa Dayu, descendente de alta casta. "Ela não era apenas bonita, mas uma princesa na única ilha hinduísta da Indonésia. Muito religiosa, ia durante o dia às cerimônias e à noite era apenas uma garçonete no Planet Hollywood", conta. "Gostei da dualidade dessa mulher, tão tradicional e tão moderna, e foi então que comecei a pensar em fazer retratos de pessoas como ela, retratos de mulheres para mostrar o que elas são além do que parecem ser", continua o artista. Dayu, ponto de partida do projeto, só foi realmente retratada em 2003.Os retratos são bem diversos. As mulheres, que "são o próprio mundo", como diz Lamazou, são identificadas apenas pelo primeiro nome e localidade. Sem hierarquias e diferenças, elas são colocadas na mesma linha - uma prostituta, uma refugiada, uma guerrilheira, uma afegã mulher de um comandante do Taleban, a atriz e comediante Dercy Gonçalves, uma bailarina, uma mutilada de Djibouti, na África, e até Lucy, apenas um esqueleto da Etiópia, com 3 milhões de anos, que tem esse nome "porque seu descobridor ouvia na época a música Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles". Ao mesmo tempo, Lamazou também criou uma ONG, Lysastrata, para ajudar mulheres de todo o mundo. "Para os problemas que têm, sei que não precisam de fotos, mas de dinheiro", diz.

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