Retrato oculto encontrado sob tela célebre de Picasso

Desenho de homem apoiado nas mãos foi descoberto sob um dos quadros mais famosos do espanhol, 'O Quarto Azul'

AP

17 Junho 2014 | 14h54

WASHINGTON - Cientistas e especialistas encontraram uma pintura oculta sob uma das primeiras obras-primas de Pablo Picasso, O Quarto Azul, utilizando avançadas técnicas de infravermelho para revelar um homem com o rosto apoiado nas mãos. Agora, a questão que os conservadores da coleção Phillips, em Washington, esperam responder é simples: quem é ele?

O mistério está motivando novas pesquisas sobre a pintura de 1901, criada no início da carreira do artista, enquanto ele trabalhava em Paris em seu característico período de pinturas melancólicas em azul.

Nos últimos cinco anos, especialistas da coleção Phillips, da Galeria Nacional de Arte, da Universidade de Cornell e do Museu Winterthur desenvolveram uma imagem mais clara da figura misteriosa sob a pintura. É o retrato de um homem desconhecido pintado na composição vertical de Picasso.

“É realmente um daqueles momentos que fazem seu trabalho ser especial”, disse a especialista em conservação da coleção Phillips, Patricia Favero, que coletou a imagem mais clara do retrato até agora. “A segunda reação foi, ‘bem, quem é esse?’ E nós ainda estamos trabalhando para responder essa questão.” Em 2008, os primeiros vestígios apontaram a existência de um homem barbado vestido com uma jaqueta e uma gravata borboleta. 

Uma análise técnica confirmou que o retrato oculto é um trabalho de Picasso, provavelmente feito logo antes de O Quarto Azul. A desconfiança de que existia algo sob a famosa pintura é antiga. Pinceladas na tela não coincidem com a composição que retrata uma mulher no banho no estúdio de Picasso. Uma carta de um conservador de 1954 já registra certa estranheza em relação ao sentido das pinceladas, mas somente nos anos 1990 um raio X revelou uma imagem de algo sob a pintura – na época, não ficou claro que era um retrato.

“Quando Picasso tinha uma ideia, ele imediatamente a colocava em prática”, disse a curadora Susan Behrends. “Ele não possuía recursos para adquirir novas telas para todas as ideias e às vezes tinha que trabalhar em papelão”, continuou.

A possibilidade de ser um autorretrato do malaguenho foi descartada. Uma figura possível é a do mercador de arte de Paris Ambrose Villard, que abrigou a primeira exposição de Picasso em 1901. 

Patricia Favero tem colaborado com outros especialistas para tentar identificar também as cores da pintura oculta. A ideia é recriar uma imagem digital da intenção de Picasso na obra. 

Imagens escondidas já foram encontradas em outros trabalhos importantes de Picasso. Uma análise técnica do quadro La Vie revelou um retrabalho significativo na composição. Pesquisadores também encontraram o retrato de um homem com bigode sob a pintura Mulher Passando Roupa.

A diretora da coleção Phillips de Washington, Dorothy Kosinski, disse que o conhecimento sobre o artista pode aumentar com as novas contribuições da tecnologia. “Esse processo está fornecendo um corredor de acesso que considero enriquecedor, pois permite que os apreciadores sejam parte da montagem de um quebra-cabeça.” Ela ainda afirmou que quanto maior o entendimento de uma obra, maior é a valorização do seu significado na vida de Pablo Picasso.

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