Retrato doído da China em mutação

Em Busca da Vida, com seus personagens perdidos à procura do passado, mostra a tradição soterrada pela ''''mundialização''''

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Pode ser mera coincidência. Com o circuito ocupado massivamente pelos blockbusters de Hollywood - o novo Harry Potter (A Ordem da Fênix) estreou na semana passada em 750 salas -, sobra pouco espaço para a produção mais alternativa. Mas ele está sendo bem ocupado. Na semana passada, estreou Medos Privados em Lugares Públicos, de Alain Resnais, vencedor do Leão de Prata (de direção) no Festival de Veneza, em 2006. Mais de 40 anos antes, Resnais ganhara seu Leão de Ouro por O Ano Passado em Marienbad. No ano passado, o prêmio maior de Veneza foi para o chinês Jia Zhang-Ke, por Still Life. E é este filme, rebatizado como Em Busca da Vida, que vem se somar a Medos Privados no circuito de arte da capital.Tem gente que se arrepia só de ouvir falar em filme de arte. Parece sinônimo de filme chato, pedante. Nada disso. Ocorre que o cinema não é só - ou não é, definitivamente - diversão para ser consumida com pipoca e refrigerante. Eventualmente, filmes assim podem ser legais, divertidos. Cinema é outra coisa. Uma janela para o mundo, um instrumento de investigação da realidade e isso é o que fazem os filmes de Zhang-Ke e Resnais. O deste último, em vários momentos, provoca o riso. Zhang-Ke é mais grave, mais sombrio. Pudera - o que ele está falando é sobre a substituição de um velho mundo por outro. Luchino Visconti também fazia isso, em clássicos como O Leopardo, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes, em 1963, mas lá era a burguesia endinheirada que substituía a nobreza atropelada pela marcha da grande história. Zhang-Ke mostra a tradição sendo soterrada - melhor dizer: inundada - pela mundialização.Chamava-se O Mundo (The World) o filme precedente do diretor chinês. Situava-se neste parque temático construído em Pequim, no qual se encontram réplicas dos monumentos mais importantes do mundo. A nova China, capitalista e globalizada, reflete seu poder econômico nesta ode ao mau gosto, que bem poderia estar em Miami, por exemplo, ou em Las Vegas, cidades que tentam fugir do real, por meio de ilhas da fantasia. Em The World, há o parque temático, mas também existem os funcionários e eles ainda têm o pé na outra China, que até ontem era comunista. Há um choque cultural profundo, e na mesma geração. Crianças criadas no comunismo viraram adultas no capitalismo, despreparadas para a competitividade que dá o tom na economia de mercado.The World, O Mundo. Chama-se, agora, assim, o barco que, na abertura de Em Busca da Vida leva o sombrio San Ming (Huang Yong) para a região onde está sendo construída a maior represa da China, a hidrelétrica das Três Gargantas. Não é mera coincidência. Zhang-Ke está traçando a ponte entre seus dois filmes. San Ming volta a Fengje, após 16 anos, na tentativa de reencontrar a mulher e a filha. Toda a área será coberta pelas águas. É uma cidade condenada como aquela que os habitantes tentam salvar em Narradores de Javé, de Eliana Caffé. Paralelamente a essa história - e as duas se alternam, sem chegar a se cruzar de verdade -, o autor desenvolve outra trama minimalista, sobre Shen Hong, representada por sua atriz-fetiche, Zhao Tao, que vem procurar o marido, de quem se perdeu há dois anos.Dois perdidos em busca do passado, em busca de raízes, mas é justamente isso, o passado e as raízes, que será coberto pelas águas. Zhang-Ke tece mais uma ficção para entender seu país continental. Talvez seja interessante destacar, como informação, que o cineasta descobriu o cenário (e até o tema) deste filme em 2004, quando foi convidado a presidir o júri do Festival do Real, em Paris. Um dos filmes a que Zhang-Ke assistiu foi o documentário Yanmo, que mostrava justamente a barragem das Três Gargantas, as cidades que haviam sido engolidas pelas águas e as populações desenraizadas em nome do progresso. Zhang-Ke fez não apenas um, mas dois filmes. Em Busca da Vida é uma ficção, complementada pelo documentário Dong, em que ele usa a obra sensualista do pintor Liu Xiadong para revisitar a mesma região. Não foi a primeira vez que isso ocorreu em sua carreira, pois há alguns anos Zhang-Ke fez outro documentário, In Public, como complemento da ficção Prazeres Desconhecidos.O mundo de The World era falsificado, de mau gosto. Tudo parecia novo, só os dramas eram antigos. O de Em Busca da Vida é agora convulsivo, feito de ruínas e de barro. Nas paredes das casas, agentes da represa marcam o nível que as águas vão atingir, ao mesmo tempo que expulsam os habitantes. E é um mundo do dinheiro, encarado como não-valor. No barco, no começo, San Ming assiste a um espetáculo de magia que consiste em transformar a moeda chinesa em euros, que têm mais valor (uma metáfora do novo capitalismo da China). Em seguida, um amigo que San Ming faz no barco assiste, pela TV, à cena famosa de Sindicato do Crime, de John Woo, de 1986, na qual Chow Yun-fat acende o cigarro com dinheiro, gesto que ele vai imitar, substituindo o dólar por uma folha de jornal.Como em The World, Jia Zhang-Ke amplia seu discurso sobre as transformações do mundo filmando em alta definição. Ou seja, ele incorpora as novas tecnologias à sua estética e, desta maneira, não fala só sobre as mudanças no mundo. Fala sobre as mudanças no próprio cinema. Seria diminuir o alcance do projeto artístico de Zhang-Ke ignorar o que a mudança de suporte representa para ele. Em todo processo de transformação existem perdas e ganhos. As perdas humanas o atraem como material ficcional. A forma como o próprio cinema está mudando é um estímulo e outro material de reflexão para ele.

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