Rendas e bordados no casamento com bolero e ódio

Gabriel Villela recria com brilho Vestido de Noiva, obra-prima de Nelson Rodrigues

Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2009 | 00h00

Nelson Rodrigues certamente se espantaria com os segredos de Minas Gerais do diretor Gabriel Villela. Já que o dramaturgo quer nos assombrar com os delírios nervosos dos subúrbios greco-cariocas, onde Sófocles e Esquilo se cruzam em bordéis do Meier, o mineiro Gabriel traz também seus segredos. Se Vestido de Noiva é, no limite, um combate de morte entre duas irmãs pelo mesmo homem, disputa levada a uma exasperação operística e freudiana, ele não precisa ser contado de modo cinzento. O espetáculo em cartaz tem cores que evocam bordados e rendas de antigas famílias das Gerais ou estampas do Sabonete Araxá. Figurinista de rica imaginação e repertório ancestral, Gabriel vestiu suas personagens com a exuberância que vai do branco nupcial aos tons furta-cores. Tudo para exibir mulheres bonitas, elegantes e fascinantemente loucas: a noiva, a irmã concorrente, uma mitológica cafetina assassinada por um adolescente; e homens cínicos ou confusos. Todos deslizando em uma espécie de coreografia nervosa (criada por Rosely Fiorelli).Um acidente de carro aciona o enredo que se passa na cabeça da vítima, entre memória e alucinação enquanto fervilha o plano do real. Nunca será demais repetir ser uma obra magistral com aquele sopro de irrealidade dos relatos mineiros, como o romance Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso, e Os Reis da Terra, a dolorida (e quase desconhecida) autobiografia de José Vicente de Paula, figura maior da dramaturgia brasileira. Estas ventanias da mente nunca foram estranhas a Villela, que delas fez o amalgama da montagem. As três mulheres que comandam a ação se fecham em quarteto na figura paradigmática da mãe alienada e mater dolorosa. Os homens oscilam entre o frágil e o patético, salvo o noivo, o pivô da tragédia, misto de anjo calculista e corréu. Na transfiguração operada pelo palco, esta humanidade convulsa e paradoxalmente banal, cotidiana, é transformada em espectros, ou estereótipos (mitos gregos e Freud ao fundo). Para acolhê-la com força visual é preciso um cenário que evoque um universo fechado com saídas enganosas, como o espelho, por exemplo. A maestria do cenógrafo J.C. Serroni constrói este labirinto no fundo atraente que se completa com a iluminação, de Domingos Quintiliano, e som (musica, efeitos) de Daniel Maia. Um dos trunfos de Gabriel Villela é assumir o melodrama, o aspecto folhetinesco de Nelson Rodrigues. Há um toque humorístico implícito, quando a ação é sublinhada por velhos boleros, primos pobres, mas não menos dignos, do bel canto. Enquanto as interpretações femininas são densas, há um toque caricato na ala masculina e esta combinação do dramático com o kitsch é o componente poético de Vestido de Noiva. No entanto, a quase calma melancólica do conjunto às vezes dispersa seu veio nervoso. Em alguns momentos, a representação parece ficar com pressão baixa na espera dos golpes de teatro do autor. Há, por fim, o essencial equilíbrio de um elenco com a presença de celebridades da televisão. Leandra Leal luta para chegar a um personagem complexo (a noiva) para o qual não tem experiência de palco; mas luta com o empenho louvado pelo diretor. Marcello Antony conquista exatamente por estar desligado da galante imagem televisiva. Empunhando seu violão quebrado, Antony confere ao noivo um vago mistério do pierrô de Ismael Nery. Como todos os papéis masculinos estão com atores competentes, os que se revezam em intervenções incidentais, algo sempre difícil, sabem se fazer notar (Pedro Henrique Moutinho, Rodrigo Fregman, Flávio Tolezani, Cacá Toledo). O mesmo brilho caracteriza as atrizes. Nesta linha de frente feminina de primeira, vale uma homenagem a Maria do Carmo Soares, calorosa presença no teatro paulista, mergulhada na voragem rodriguiana na muito boa companhia de Vera Zimmermann, Luciana Carnieli, ferozmente convincentes, e Helô Cintra, bela figura de melindrosa. Nelson Rodrigues gostava de dizer que o verdadeiro diretor é o que só obedece ao texto e não se faz notar. O atual Vestido de Noiva mostra que não é bem assim. Felizmente.

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