Remete a Velô, mas é obra ''sem'' progresso

Faltam canções com a força de O Quereres, do LP de 1984

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

15 de abril de 2009 | 00h00

Experimentar canções no palco antes de gravá-las, como fez com zii e zie, não é novidade na carreira de Caetano Veloso. Quando realizou Velô, em 1984, ele fez mais do que furar o esquema viciado das gravadoras, ao estrear o show sem ter lançado o disco. O impacto de canções como Língua, O Quereres, Shy Moon, Podres Poderes foi grande. A Banda Nova, que o acompanhava, tinha um approach com o pop-rock brasileiro do período, mesclava samba com reggae e rap, até o ídolo Ritchie participava do disco, que também reabilitava Elza Soares. A sonoridade ficou datada, mas as canções sobreviveram. Ouça trecho da faixa Incompatibilidade de Gênios Vinte e cinco anos depois, dá para traçar um paralelo com Velô. De novo Caetano aproxima gêneros e levadas, como samba e rock, com convicção e o apoio dos jovens e talentosos instrumentistas da Banda Cê - Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo e teclado) e Marcelo Callado (bateria) -, os mesmos do álbum anterior, mais Moreno Veloso, que coproduziu o CD com Sá.Caetano batizou a nova experiência com o power trio de "transamba" ou "transrock" - é quase um ou outro. Como "velô", os neologismos indicam ação, inquietação. A expressão mais viva desse movimento é a retomada de um clássico de João Bosco e Aldir Blanc, Incompatibilidade de Gênios (com melhor resultado ao vivo do que no monótono CD), e de outro samba antigo, Ingenuidade (Serafin Adriano), ambos do repertório e do mesmo disco de Clementina de Jesus, lançado em 1976.As novas canções autorais de Caetano não correspondem ao empenho criativo no conceito sonoro nem à força de Língua e O Quereres, para se fixar só na remissão a Velô. A forma é interessante, tem o sangue novo dos meninos, o conteúdo nem tanto. Vale mais pela provocação do que pela música em si.Há uma abundância de citações pop/contemporâneas nas letras, como Kassin, Madonna, o próprio Pedro Sá, Lula, Osama, Condoleeza, FH, big brother, Seu Jorge, Los Hermanos, a Fundição Progresso da Lapa rejuvenescida e outras referências ao Rio - que é o tema de várias letras, como Perdeu e Falso Leblon. Os versos de faixas mais elaboradas como estas, muito embora as melodias emperrem a realização da peça como canção, contrapõem-se a outras como Tarado ni Você, o momento mais constrangedor do CD, daqueles que a gente tem vergonha pelo outro.Base de Guantánamo diz o seguinte: "O fato de os americanos desrespeitarem os direitos humanos em solo cubano é por demais forte simbolicamente para eu não me abalar". E daí? A nova "transa" de Caetano é abusar de falsetes em faixas como em Por Quem?. Pode parecer emulação de Thom Yorke, mas é só um chiado choroso.Nas sessões de gravação do DVD durante o show Obra em Progresso, Caetano leu trechos de uma entrevista de Lobão, ressaltando o fato de que mais uma vez as ideias de ambos conflitavam. Na canção dedicada a ele, Lobão Tem Razão, o leonino diz que o rock acertou, remetendo a "o rock errou" do referido lupino. Quem leva quem a sério?Na época de Velô, quem ia ver o show mal podia esperar o lançamento do LP. Agora Caetano criou um blog para, a princípio, abrigar comentários sobre a progressão da tal obra. Acabou excedendo, fazendo do site uma espécie de Caras culta e verborrágica, um Big Brother do Eu (como a maioria dos blogs), abrindo sua casa-cabeça para quem dispusesse de tempo e paciência para perscrutá-la.zii e zie ficou explícito ali antes de acabado, mas já era isso mesmo. Expectativa para o lançamento do CD físico? Pouca. No entanto, se as canções se sustentassem, isto seria o de menos. Por tudo de genial que Caetano já fez, esta é uma obra sem progresso. Cê era melhor.

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