R.E.M. e as mentiras sinceras

Stipe seduz com caras e gestos e banda debulha 25 canções para 7 mil fãs doidos

Crítica Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

12 de novembro de 2008 | 00h00

Magricela, queixudinho, baixinho e vestido como uma alegre fashion victim (quem mais combina gravada listada com camisa listada, as listas de camisa e gravata desiguais, e ainda por cima paletó de brim e calça jeans e correntes no bolso traseiro com tanta sem-cerimônia?), Michael Stipe é a única coisa realmente moderna na banda R.E.M., cujos riffs e coros e teclados incidentais estão sem dúvida envelhecidos e datados. Veja slide show do espetáculo Mas Stipe, com um repertório de gestos, caras e bocas e uma voz incrível, potente, faz com que tudo pareça fresco e agradável - até porque ele demonstra ter uma energia embasbacante, seja dançando como se fosse um clubber ou um caubói de boate. Havia aqueles que estavam ali como se tivessem ido a uma microparada do Orgulho Gay, felizes com seu ídolo assumido e íntegro, e outros que o veneravam apenas pela poesia cristalina, coloquial. "Todo mundo se machuca, às vezes."Stipe ajoelhou no palco, cantou no meio da platéia, deixando-se afagar e apertar, e depois desabou aos pés do microfone como se estivesse emocionalmente extenuado. Uma mentira sincera que interessa a todos seus fãs. Ao final de tudo, depois de 20 músicas, o telão perguntava: "Mais R.E.M.?", e a platéia espancava o chão impiedosamente com os pés, assentindo. Me engana que eu gosto - e aí sobrevieram mais cinco músicas.Por conta disso, o primeiro show em São Paulo foi um encontro catártico, passional, taquicardíaco. Um verdadeiro evento, movido a histeria coletiva e uma performance explosiva (quase um overacting) de Stipe. O seu público se esgoelou e fotografou com celulares e câmeras o quanto pôde desde a primeira música, Living Well Is the Best Revenge (do novo álbum, Accelerate), uma das canções que mostram um R.E.M. fazendo um rock?n?roll mais moderno, nervoso, a voz eletronicamente modificada, e o tornam menos prisioneiro dos hits.Formado em Athens, Georgia, em 1980, o grupo atravessou 28 anos de pop rock com uma aura de incorruptível, elegante e conseqüente, quase sempre engajado em boas causas perdidas. Stipe, mais Peter Buck (guitarra) e Mike Mills (baixo) adicionaram à sua formação na turnê latino-americana um segundo guitarrista (que também toca baixo e teclados) e um baterista, tornando-se um quinteto de som encorpado, forte.Na terceira música, What?s the Frequency, Kenneth?, Stipe colocou uns óculos de ficção científica antiga, muito pretos, e dançou como Michael Jackson em Moonwalk. Déjà vu total, mas um gesto calculadamente retrô, talvez para ressaltar que Stipe atua numa espécie de espaço atemporal, alheio à cronologia.As canções mais políticas da banda, como Drive, Man-Sized Wreath e Fall on Me, além de Ignoreland, foram a deixa para Stipe lembrar da vitória do seu candidato, Barack Obama, nas eleições americanas, um fato "que está mudando a História". Imagens no telão e máscaras na platéia reforçavam a celebração.É hábil a costura que a banda faz entre os megahits, como Losing My Religion e It?s the End of the World as We Know It (And I Feel Fine), e as canções novas, que nem pareciam mais desconhecidas para a platéia, como Supernatural Superserious. O grupo tem uma boa pegada de rock?n?roll, mas o seu pop rock é que parece meio superado face à profusão de bandas novas elétricas que surgem no rastro do pós-punk, mesmo amálgama que forjou o R.E.M.Stipe até contou uma lorota para capturar de vez os corações dos fãs ensandecidos - ele "confessou", durante a execução da música Electrolite, que a canção teria alguma relação com a Paulicéia Desvairada quando ele andou por aqui 18 anos atrás e viu as luzes da cidade do avião. Ao voltar para Los Angeles, onde vivia na época, teria perpetrado a letra, que fala de lugares e personagens da capital hollywoodiana, como Mulholland Drive, Martin Sheen, Steve McQueen e Jimmy Dean. Acontece que Electrolite é do álbum New Adventures in Hi-Fi, que é de 1996. Ou seja: se houve alguma "inspiração" telegráfica de Stipe, teria demorado 6 anos para ser acionada em sua mente descabelada.As baladas, como Everybody Hurts, eram cantadas a plenos pulmões pela audiência, deliciada com a generosidade dos seus ídolos. O Via Funchal estava lotado nos setores mais baratos, mas não encheu na área dos ingressos mais caros, o que deveria levar a um exame de consciência dos produtores do show biz, que andam cobrando um pouco além da conta do público paulistano.Paciente e generoso com os fãs, mas não submisso e populista, Michael Stipe ocupa com justiça lugar de destaque no panteão do rock. Quando os fãs mais doidões gritavam e pulavam tentando chamar sua atenção, ele os imitava, dando pulinhos, dizendo que também podia fazer aquilo, chamando atenção para o ridículo da devoção cega. Set List1. Living Well Is The Best Revenge 2. I Took Your Name 3. What?s the Frequency, Kenneth? 4. Fall On Me 5. Drive 6. Man-Sized Wreath 7. Ignoreland 8. Hollow Man 9. Electrolite 10. The Great Beyond 11. Everybody Hurts 12. Imitation of Life 13. She Just Wants To Be 14. The One I Love 15. Sweetness Follows 16. Let Me In 17. Bad Day 18. Horse To Water 19. Orange Crush 20. It?s the End of the World As We Know It (And I Feel Fine) 21. Supernatural Superserious 22. Losing My Religion 23. Animal 24. (Don?t Go Back To) Rockville 25. Man On The Moon

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