Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Religião é abordada sob polêmica na 31ª Bienal de São Paulo

Do Templo de Salomão destruído à Santa Ceia em um prostíbulo, veja cinco projetos que tem a religiosidade como pano de fundo

Celso Filho, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2014 | 11h53

SÃO PAULO - Em cartaz até 7 de dezembro, a 31ª Bienal de São Paulo não quer se restringir a um tema central, mas possui, em seu cerne, um tom político. Em 81 projetos, os cerca de cem artistas, vindos de 34 países, compartilham suas visões de mundo e suas contestações, que, por vezes, chegam a ser quase atos públicos. Em meio a estas obras, não poderiam faltar criações que citam a religiosidade - seja de maneira crítica ou contemplando o seu misticismo.

Veja cinco projetos, nos quais a religião é o pano de fundo:

Deus é Bicha

Com potencial de gerar polêmica entre os mais conservadores, o projeto reúne obras de Nahun Zenil (México), Ocaña (Espanha), Sergio Zevallos (Peru) e Yeguas del Apocalipsis (Chile). Em pinturas, fotografias, vídeos e esculturas, os artistas discutem a homossexualidade de forma sarcástica, retratando figuras travestidas com elementos religiosos e políticos. 

Entre elas, o coletivos chileno Yeguas del Apocalipsis retrata a Santa Ceia bíblica em um prostíbulo da rua San Camilo, em Santiago. Na performance, uma das prostitutas se sentao ao centro da mesa, assumindo o papel duplo de Jesus Cristo e Augusto Pinochet.

Erra de Deus

Baseada na obra Palabras Ajenas, de León Ferrari (1920-2013) - que já foi classificada como blasfêmia pelo Papa Francisco -, o grupo Etcétera..., da Argentina, montou uma instalação para a 31ª Bienal. Primeiro, são expostas criações polêmicas, como imagens santas infestadas por baratas e escorpiões. Depois, o visitante tem acesso a uma sala, onde há uma espécie de tribunal com áudios de discursos de líderes religiosos e políticos. Com um dos telefones que estão na bancada e um roteiro, é possível interagir com a obra, nessa 'disputa de poder'.

A Família do Capitão Gervásio

Desde 2006, a mediunidade tem sido um guia na pesquisa artística da mineira Tamar Guimarães. Junto com o dinamarquês Kasper Akhøj, ela foi até a cidade de Palmelo, no interior de Goiás. Com pouco mais de 2 mil habitantes, a vida do lugar gira em torno de um grupo de médiuns do Centro Espírita Luz da Verdade. 

O resultado de sua visita à cidade é o filme A Família de Capitão Gervásio. Nele, os artistas registraram sessões de cura sobrenatural, desenvolvida pelo grupo espírita. As imagens se intercalam outras da arquitetura moderna de cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.

Inferno

A artista israelense Yael Bartana aborda as manifestações religiosas sob o pano de fundo da construção histórica do Templo de Salomão. Erguido pela primeira vez em 584 a.C., ele não sobreviveu às invasões babilônicas. Séculos mais tarde, um segundo templo foi levantado em 64 d.C. com o mesmo destino - que resultou no Muro das Lamentações.

Para o filme Inferno, Yael traz a história para o Brasil e utiliza o recente templo erguido pela Igreja Universal do Reino de Deus em São Paulo como cenário. Polêmica e irônica, a produção reproduz com efeitos de computadores a destruição do templo do Brás, como aconteceu com as duas outras obras no passado.

Nosso Lar, Brasília

No projeto, o holandês Jonas Staal uniu universos distintos - a racionalidade da arquitetura modernista de Brasília e as crenças do espiritismo. Em duas salas, o artista convida o visitante a adentrar nessas duas realidades que parecem muito distantes uma da outra.

Com vídeo, cartografias e maquetes, Staal aborda similaridades e contraposições entre a capital federal e a cidade mística Nosso Lar - dois lugares que foram idealizados na mesma época, mas com propostas um pouco diferentes.


31ª BIENAL DE SÃO PAULO

Pavilhão da Bienal. Av. Pedro Álvares Cabral, Pq. Ibirapuera, portão 3; 5576-7600. 9/19h (4ª e sáb., 9h/22h; fecha 2ª). Grátis. Até 7/12.

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