Relações perigosas de todos nós

Satisfação do desejo como meta irrefreável faz de O Ensaio, escrita em 1950, peça de nosso tempo

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

11 de julho de 2008 | 00h00

Com 29 anos de existência, o Grupo Tapa alcançou um nível de aprimoramento que faz valer à ida ao teatro só para apreciar o trabalho dos intérpretes. Independentemente da montagem em cartaz, pode-se esperar dessa trupe, dirigida por Eduardo Tolentino, excelente técnica vocal - texto dito com clareza e nuances - e desenvoltura de atores que sabem exatamente o que querem dizer por meio da peça. O autor jamais é escolhido aleatoriamente, pelo contrário. Sua peça deve ter propósitos claramente definidos e são dissecados em profundidade nos ensaios. Ouça trechos da entrevista do diretor Tais qualidades, intrínsecas ao grupo, ganham maior visibilidade quando alguém da equipe brilha no cinema ou na televisão - como aconteceu com Sandra Corveloni, vencedora da Palma em Cannes por sua atuação no filme Linha de Passe. Mas são qualidades sempre presentes no Tapa, não importa quais integrantes estejam em cena, e podem ser conferidas com a estréia amanhã de O Ensaio, de Jean Anouilh (1910-1987), no Teatro Imprensa.Desta vez, a escolha do texto foi movida pelo desejo de dar continuidade a uma das vertentes já trabalhadas: a visão de mundo das classes dominantes. Basta ler a primeira frase, no quadro ao lado, para lembrar da mesma razão cínica presente em personagens de montagens anteriores, como A Importância de Ser Fiel, de Oscar Wilde, e Major Bárbara, de Bernard Shaw.A ação de O Ensaio, escrita em 1950, transcorre num castelo herdado por um casal de condes com a condição de que passem um mês por ano nessa propriedade e cuidem de 12 órfãos. Vingança da falecida parenta que jamais conseguiu ficar uma temporada ali e odiava crianças. Para passar o tempo, o conde, sua mulher e sua amante, o amante de sua mulher e um amigo de infância (confira abaixo) ensaiam uma peça de Pierre Marivaux (1688-1763) chamada A Dupla Inconstância, na qual há uma troca de casais. O conde chama a jovem que cuida dos órfãos para um papel e sua paixão por ela detona o conflito.No Brasil, uma peça de Anouilh, O Canto da Cotovia, foi escolhida por Maria Della Costa para inaugurar o seu teatro, em espetáculo dirigido por Gianni Ratto. Na Europa, seu textos já foram encenados, mais de uma vez, por diretores como Peter Brook, Ingmar Bergman e Giorgio Strehler. Aparentemente são muito diferentes os motivos que levaram o grupo a escolher textos do escandinavo Strindberg, do italiano Pirandello e agora do francês Anouilh para suas montagens mais recentes. Mas se existem diferenças, há também semelhanças para além da qualidade de escrita.Tolentino ressalta que a investigação da desigualdade social do ponto de vista dos ricos é tema presente em O Ensaio, mas não o único. ''Esse espetáculo une várias pontas de investigação do Tapa'', diz. Ele indica, como diálogo com Camaradagem de Strindberg, o aspecto da disputa entre homens e mulheres. ''Nessa peça de Anouilh os pobres são se dão mal, porém as mulheres também'', observa. ''A condessa é uma mulher maldita, mas por outro lado ela se submeteu aos caprichos do marido para não perder sua posição social, e carrega sua dor. Quantas mulheres não seguram o tranco para manter o casamento e por isso se tornam mesquinhas e ressentidas?''A peça se aproxima ainda de Pirandello, cuja obra o grupo explorou num de seus mais recentes espetáculos, Amargo Siciliano, pela utilização de um recurso caro a esse autor, a peça dentro da peça. ''Eles são amadores preparando uma representação caseira, que começa a mexer com eles, a partir das relações exploradas na peça de Marivaux'', diz Tolentino. O diretor chama atenção para o fato de Marivaux - um autor não por acaso escolhido por Anouilh - ter sido o primeiro a colocar numa peça uma relação conjugal entre classes sociais.''Marivaux escreve às vésperas da Revolução Francesa e começa aí a implodir uma ordem social. Ele tirou a dramaturgia do terreno da comédia de costumes. Seus personagens vivem num mundo abstrato, não manipulam dinheiro, não bebem água, só fazem o jogo amoroso.'' Nesse sentido, a peça remete a Ligações Perigosas. Mas é preciso não esquecer que Anouilh retoma esses personagens muito depois, em 1950, depois da 2.ª Guerra, pois a ambos interessa investigar o desejo e as relações amorosas sem o moralismo da burguesia.''Anoilh escreve depois de Hiroshima, já influenciado por Sartre e Simone de Beauvoir, pelo existencialismo, por essa sociedade que começa a acreditar no amor livre, nas relações que não precisam mais estar presas ao casamento.'' E aí a peça ganha contemporaneidade. ''Isso ficou evidente na reação do público no circuito que fizemos pelo interior do Estado em apresentações grátis - contrapartida pelo apoio que recebemos dos vários níveis, estadual (PAC), municipal (Programa de Fomento) e federal (Prêmio Miriam Muniz)'', diz Tolentino. ''A superficialidade nas relações, essa ausência de valores essenciais, a satisfação do desejo como meta irrefreável tudo isso tem muito a ver com a nossa época. Pessoas de diferentes classes sociais e faixas etárias que compunham essa platéia se identificaram com o vazio desse casal, com sua dor.''Nessa encenação, os atores começam por tirar as perucas e, aos poucos, tiram os figurinos de época. Ao se desnudarem, aproximam-se visualmente da platéia. Não por acaso.Frases"Não se pode querer que o nosso meio produza gênios. Não somos suficientes para atender à demanda. O povo é que tem o privilégio de decantar três ou quatro gerações de borra-botas até que surja um presidente da república. De nossa classe só se pode exigir que sobreviva. É nosso único talento há séculos.""Há entre nós uma coisa tão bonita, eu jamais mentiria para você. Mas vamos deixar o amor para os pobres. Há mil coisas mais importantes do que essa embriaguez repentina: duas horas de êxtase e uma ressaca infernal. O preço é caro demais. Minha única ambição é fazer da minha vida uma festa.""Por trás daquele jeito reservado, ela tem uma chama interior. Ela não é como essas mulheres maravilhosas que fazem de tudo para brilhar. Produzem labaredas, mas quando se fica a sós com elas, o fogo se apaga." Quem São Os Personagens e Seus Intérpretes Na TramaCONDESSA - CLARA CARVALHOHerdeira do castelo onde se passa a ação, vem de uma linhagem de nobres cujas origens remontam ao mundo feudal. Rica e sofisticada, casou apaixonada. Tem amantes, aceita que o marido as tenha. Mas não está isenta de dor e ressentimento. CONDE - ZECARLOS MACHADOComparado à mulher, é um novo rico: sua família tem ?apenas? 200 anos de nobreza. Dissipou sua fortuna com festas e amantes. Apaixona-se por Lucile. HERÓI - WALTER BREDAAmigo de infância do Conde, bêbado por hereditariedade. Guarda a dor de uma perda amorosa do passado, mágoa que será fundamental para o desfecho da peça. HORTENSE - ADRIANA ALENCARNobre, mulher mundana, amante do conde. Aceita sua condição de ?outra? e até mesmo a certeza de que será trocada, mas não por alguém de outra classe social. VILLEBOSSE - DOUGLAS SIMONAmante da Condessa, nobre de província, tem idéias ?antiquadas? sobre casamento e fidelidade. Deslocado no ambiente do castelo, torna-se o elemento cômico da peça. LUCILE - ANNA CECILIA JUNQUEIRAMoça pobre contratada para trabalhar para a família provoca paixão nos homens e ciúme nas mulheres. Contraponto à futilidade reinante, será o elemento desestabilizador das relações. DAMIENS - LUIZ BACCELLIO administrador ?profissional? das propriedades da família, um homem prático, porém capaz de nutrir sentimentos pela afilhada Lucile, 40 anos mais nova.ServiçoO Ensaio. 14 anos. 120 min. Teatro Imprensa (449 lug.).Rua Jaceguai, 400, 3241-4203. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h.R$ 40 e R$ 50 (sáb.)

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