''''Rejeito escrita definida como política''''

Embora tenha construído uma obra sob regime totalitário, o albanês Ismail Kadaré reivindica uma universalidade no trabalho

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

No interior de uma família tradicional, um garoto acompanha drásticas transformações que mudarão o curso de sua vida. Dentro de casa, o avô, já decrépito, caminha lentamente para a morte. E, para piorar, um tio ameaça se suicidar, provocando um tremendo abalo familiar. Do lado de fora, a Albânia, país onde vive, sente o pesado efeito da ditadura comunista, que assumiu o poder logo que terminou a 2ª Guerra Mundial. Em meio a esse furacão interno e externo, em que o menino perde os últimos vestígios da inocência, está centrado o romance Uma Questão de Loucura, de Ismail Kadaré, recentemente lançado pela Companhia das Letras (80 páginas, R$ 28). ''''Não se trata, porém, de um romance de formação'''', comentou o escritor, em entrevista por telefone ao Estado. ''''Também não é uma história política. Trata-se de uma ficção, o que explica minha paixão pela literatura.'''' Kadaré falou desde Paris, onde vive exilado desde 1990, seguindo o mesmo caminho de outros intelectuais do Leste Europeu (os romenos Eugène Ionesco e Emil Cioram, o lituano Emmanuel Levinas, o checo Milan Kundera, o iugoslavo Danilo Kis, foram alguns deles). Curiosamente, sua saída da Albânia, onde nasceu em 1936, aconteceu depois da queda do ditador Enver Hodja, que ficou no poder entre 1945 e 1985, período em que censurou quatro livros do autor. A passagem de Hodja inspirou Kadaré, cuja ditadura ele passou parte da carreira denunciando - algumas vezes mais abertamente, em outras simbolicamente. Na verdade, há opiniões divergentes se Kadaré foi um dissidente ou um conformista durante o período comunista da Albânia. Em diversas ocasiões, ele mesmo refutou a idéia de ter sido dissidente. Por outro lado, o fato de ter sido deputado durante o governo de Hodja, que também lhe concedeu a posição de ser o único escritor albanês autorizado pelo regime, causou polêmica. Sua literatura, no entanto, serve como importante defesa, pois algumas das suas obras (como O Palácio dos Sonhos) são profundamente antitotalitárias e ressaltam o valor da liberdade. Ao deixar o país no momento em que a tirania já não mais dominava, Kadaré provocou uma comoção entre os albaneses a ponto de acelerar uma série de acontecimentos que culminariam com as primeiras eleições diretas no país, em 1992. Autor de Abril Despedaçado, que inspirou o filme de Walter Salles, Kadaré é um homem de fala séria, poucos risos e de respostas cortantes que, muitas vezes, negam a proposição da pergunta. Figura constante na lista de prováveis candidatos ao Nobel de literatura, Kadaré nega-se a comentar o assunto, preferindo outros, como demonstra na seguinte entrevista. O que lhe parece quando é chamado de escritor político? Não concordo. Sou um autor, ponto final. Não existe escritor político, policial ou histórico - apenas escritores. A distinção está apenas entre os bons e os maus. Já existia política no teatro grego antigo, ou mesmo na Comédia Humana, de Dante Alighieri, especialmente nos trechos referentes ao Inferno. Como faz parte da rotina humana, a política está presente também na literatura. Portanto não conheço (na verdade, não aceito) uma literatura que se defina como política. Um dos motivos seria a forte presença que a História tem em sua obra. Sim, mas estamos falando de literatura. Não vejo filosofia, sociologia ou qualquer outro ramo do conhecimento dominante em minha obra. Como foi seu relacionamento com o regime comunista, enquanto viveu na Albânia? Quatro de meus romances (Concerto do Fim de Inverno, O Palácio dos Sonhos, Clair de Lune e Le Monstre) foram proibidos por decreto. Outros sofreram com uma interdição mais mediana. Também não podíamos falar na imprensa - era como se não tivéssemos nunca escrito. Enfim, só nos restava a resistência. Qual era o grau de dificuldade? Nada diferente do que acontece ou aconteceu em outros países sob regime autoritário. Na verdade, a maior parte da literatura mundial foi criada em meio a condições políticas realmente apavorantes. Sobre sua literatura, é delicada a fronteira que separa temas reais dos oníricos, ou mesmo racionais de irracionais. Por causa disso, seus livros chegaram a ser definidos como uma espécie de realismo mágico. O que pensa disso? Para mim, em geral, as fronteiras na literatura são pouco específicas, muito menos recentes. Fala-se em realismo mágico há mais de 3 mil anos. O texto literário compreende racionalismo, irracionalismo, onirismo. Basta observar o que se produziu durante a Grécia antiga ou mesmo antes dessa época. O mundo filtrado pela escrita não pode (e nem deve) ser apresentado a partir de um sistema único ou mesmo códigos. A literatura tem sua estrutura própria, que é a mais aberta possível. É nisso que consiste o charme da literatura. É por isso que tanto precisamos dela e não por seus aspectos históricos, filosóficos, etc. Uma das características principais de sua literatura é a linguagem metafórica, a de duplo sentido. Trata-se de uma necessidade ou apenas de uma escolha estilística? Necessidade, antes de tudo. Vivi em um país, a Albânia, em que muitas palavras eram vetadas, portanto, não me sobrava outra escolha que trabalhar com alusões, com símbolos. Isso acabou se sobressaindo. Trecho Aquela bandeira erguida há mil anos, em vez de tremular nas mãos de um mártir irado e pálido, fora deixada para um velho sabido, certamente de mãos trêmulas. O rosto dele tinha uma benevolência exasperante. Um homem daquele não poderia erguer sequer um cajado para espantar gralhas, quanto mais uma terrível águia. Eu até me admirava de que ele não tivesse se confundido e erguido a bandeira alemã ou finlandesa no lugar daquela da Albânia. Eu mal esperava tocar o sino para falar com Ilir de tudo aquilo quando um obscuro raciocínio começou a me incomodar. O ''''velho de Vlora'''' se parecia com alguém. Por algum tempo fingi não perceber quem era, mas por fim desisti do estratagema e melancolicamente admiti a verdade: o hasteador de bandeira se parecia com meu avô. Como duas gotas d''''água. Os dois davam pena. Um fazia que hasteava a bandeira, o outro fingia que lia livros em turco. Numa palavra, dois bocós que de nada serviam.

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