Rei da noite agora reina de dia

João Ubaldo Ribeiro lembra passado boêmio e presente com médicos, calçadão, suco de espinafre...

Márcia Vieira, RIO, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2008 | 00h00

O Rei da Noite, coletânea de crônicas de João Ubaldo Ribeiro que a editora Objetiva acaba de lançar em todo o país, reúne relatos da transformação do escritor baiano nos últimos anos. Estão lá histórias divertidas do boêmio freqüentador dos bares do Leblon, bairro na zona sul do Rio onde mora, até a sua tentativa de se transformar num homem saudável, sem beber, nem fumar, com direito a caminhadas no calçadão. Na primeira das 34 crônicas do livro, Ubaldo narra um desses porres fenomenais da época em que ele era realmente o rei da noite. Em outra, com um humor sarcástico, ataca a ditadura da qualidade de vida e diverte o leitor com a descrição das suas tentativas de caminhar no calçadão. Um dos melhores momentos é o seu esforço para ultrapassar um andarilho capenga. No auge de suas aspirações a uma vida saudável, o cronista, já sem beber e sem fumar, arriscou até a ida a um restaurante macrobiótico em Salvador. O suco de espinafre, o arroz integral e a "água descansada" não encantaram Ubaldo, mas o relato é um dos melhores do livro. O Rei da Noite revela boas conversas dos botecos do Leblon, o bairro carioca preferido das celebridades. Em uma delas, um amigo tenta convencer o outro que beber uísque evita pegar aids porque o álcool mata o vírus.Ou que metrossexual é "uma espécie de galinhagem com nome artístico. O cara fatura as que pode, a mulher dá para quem acha e é tudo metrossexual por aí". Ou ainda que "a velhice não está na mente, está nas juntas". Ubaldo faz parte de uma estirpe de cronistas que usa as próprias vivências como inspiração. E faz isso muito bem. Narra como ninguém as ponderações de um homem diante de um exame de próstata, as angústias da velhice e a irritação por causa das pressões para que leve uma vida saudável. Mas também fala com maestria sobre modernidade e amizade, além de contar conversas com amigos queridos como Jorge Amado. Foi o autor de Dona Flor e Seus Dois Maridos que lhe avisou há muito tempo: "Compadre, já me falaram muito das alegrias da velhice, mas ainda não me apresentaram a nenhuma." E Ubaldo, aos 67 anos, confirma a teoria do amigo de que idade não ensina nada, só atrapalha. "Calçar meias, para citar apenas um caso, já me parece uma modalidade olímpica e nem me passa pela cabeça alcançar um centésimo do índice."

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