MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO
MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO

Refugiados do Congo e da Síria que vivem no Rio abrem mostra que trata dos pesares da expatriação

'Horizontes Possíveis – Arte Como Refúgio' está em cartaz até o dia 25 de setembro no Museu do Amanhã

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2016 | 03h00

RIO - Ambos formados em belas artes, os congoleses Serge Kiala e Keto Kabongo deixaram seu país nos últimos meses para não morrer. Sentiam-se vulneráveis em meio à guerra civil que toma as ruas há quase 20 anos e que já conta milhões de vidas perdidas. Mesmo apartados de cônjuges, filhos e irmãos e sem trabalho fixo ainda, dizem-se felizes no Rio, e não só porque aqui encontraram paz: na cidade, puderam voltar a fazer arte.

Graças à inserção na Plataforma de Pesquisa em Arte Humanitária, da Cáritas, entidade da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que acolhe refugiados, eles passaram a criar obras fortemente marcadas pela condição de expatriados e pela nostalgia do que ficou para trás. Em maio, com mais cinco artistas estrangeiros, da Síria e da Colômbia, expuseram na antiga Fábrica Behring, na região portuária do Rio, espaço hoje voltado à arte contemporânea. A mostra Tradução Provisória reuniu pinturas e instalações.

Esta semana, novamente sob a curadoria do artista carioca Felippe Moraes, eles abriram no Museu do Amanhã a exposição Horizontes Possíveis – Arte Como Refúgio, em cartaz até o dia 25. Numa pequena área próxima à entrada da exposição permanente, foram dispostos 11 trabalhos dos dois artistas congoleses e de dois sírios.

Numa instalação, Serge Kiala retratou a África como um continente acorrentado, trancado por um cadeado. “É um continente preso, onde não há liberdade de expressão e as pessoas são oprimidas. Não se pode criticar o governo. Fiz uma exposição em que dei uma entrevista falando da tentativa do presidente de permanecer no poder por três mandatos, o que é ilegal, e passei a ser perseguido. Já tinham invadido minha casa e roubado minhas coisas de valor”, afirma Kiala, referindo-se a Denis Sassou Nguesso, presidente da República do Congo, no cargo desde 1997.

Em telas em preto e branco, ele reproduziu o continente como o corpo de uma mulher – é a África-mãe que o pariu, e é também uma menção ao racismo que sofre no Brasil desde que chegou, há nove meses. “Arrumei um emprego e um colega me chamou de ‘macaco’ três vezes. Reclamei com o chefe e acabei saindo”, lembra Kiala.

Em outra obra, Air Africa, dispôs no chão a mochila com que viajou e as quatro peças de roupa que trouxe no avião, depois de escapar da capital Kinshasa até o vizinho Congo-Brazzaville: duas camisas, uma bermuda e um par de tênis. O tio pagou a passagem. Só havia um voo disponível no dia do embarque corrido, daí a escolha pelo Brasil.

Keto Kabongo chegou no início do ano, vindo de navio desde Uganda. As cerâmicas coloridas que fazia em casa ele reproduziu no Rio no forno de um ateliê que descobriu na internet. Deu o nome de Os Conflitos a um osso de argila que simboliza as mortes com a guerra, o desamparo, a solidão.

“Estou com a família das artes, da cultura, e isso me faz feliz. O Rio é maravilhoso de verdade. A guerra acaba com tudo, não resta nada. Só separa e destrói. Moro na favela de Vigário Geral (zona norte) e sei que aqui também existem problemas, mas não se comparam aos do Congo, que vive os confrontos mais perigosos do mundo desde a Segunda Guerra Mundial”, lamenta também.

Os sírios Ali Abdulla e Anas Rjab, que deixaram um país em frangalhos pela guerra civil que vem desde 2011, usaram suportes bem distintos: o primeiro reuniu fotos de ruas destruídas feitas por parentes, que trouxe consigo em seu celular; o segundo revestiu um conjunto de objetos de dourado, possível remissão à riqueza da Síria de outrora, e criou um mapa do país com um pão sírio.

“Há artistas não refugiados, como (o britânico) Banksy, que vêm tratando do assunto. Sempre achei muito importante que os próprios refugiados falem sobre isso. São artistas com vivências muito particulares, e entre si têm imaginários diferentes”, diz o curador Felippe Moraes. “A ideia não é apresentá-los como coitados, não é fazer arteterapia, e sim lhes dar potência, inseri-los na cena carioca, enxergá-los como pessoas com força criativa, poética, linguística. Isso aqui não é ‘outsider art’”, explica ainda. 

A localização do Museu do Amanhã, justamente no porto do Rio, onde milhares de pessoas de países da África, inclusive do Congo, chegaram ao Rio escravizadas, dos séculos 16 ao 19, tem forte simbologia, ressalta Moraes. “Fazer esse trabalho nessa região reforça que eles ainda estão conquistando a liberdade a passos curtos.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.