Reflexão sobre o vazio da existência

Em O Campo, o inglês Martin Crimp discute a relação de um casal que deixa a cidade para fugir dos seus problemas

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2008 | 00h00

Há dois anos, Bruno Perillo dirigiu uma montagem de Velhos Tempos, de Harold Pinter. No elenco estavam as atrizes Giseli Valeri e Heloísa Maria. A peça tinha como trama um casal que vivia no campo, onde recebe a visita de uma mulher misteriosa. A primeira coisa que chama a atenção na sinopse do espetáculo O Campo, do inglês Martin Crimp, que estréia hoje no Centro Cultural São Paulo sob direção de Bruno Perillo, é a semelhança entre as duas tramas.''Não é coincidência. Crimp é um autor contemporâneo, admirador confesso de Pinter, e Velhos Tempos inspira essa peça'', diz Bruno Perillo. No elenco, novamente estão as duas atrizes e ainda Edgar Bustamante. Desta vez, o casal Richard e Corine (Heloísa) mora no campo há pouco tempo. Trata-se de um médico e sua mulher, que deixaram a cidade para fugir de seus problemas. Ali, como na peça de Pinter, recebem a visita de uma mulher (Giseli), ex-paciente do doutor, que vai provocar a desestabilização.Pinter recebeu o Prêmio Nobel, em 2005, por sua capacidade de ''descobrir o precipício subjacente nas questões cotidianas''. Sem dúvida essa é também a perseguição de Crimp nesse texto. Mas, evidentemente, não se trata de uma cópia da peça inspiradora. ''A personagem da mulher em Pinter é mais misteriosa. Crimp é mais pé no chão e toca mais diretamente numa questão de classe. Esses personagens fazem parte daquela elite que se isola em condomínios, em carros blindados, trata com grande insensibilidade seus empregados e não consegue uma comunicação verdadeira nem entre os pares.''O casal de protagonistas vive um casamento sem afeto. O médico é viciado em morfina, algo mais comum do que se imagina entre esses profissionais. ''Apresentamos essa peça numa Faculdade de Medicina em Belo Horizonte e no debate que se seguiu falou-se muito sobre a esse problema devido à facilidade que os médicos têm de acesso a essas drogas utilizadas na contenção da dor.''Mas é claro que o simples acesso não faz ninguém viciar-se e, como na dramaturgia de Pinter, interessa o problema de fundo, o vazio dessas existências que leva à autodestruição. ''O casamento deles está acabado, mas a esposa opta pela aceitação da ausência de afeto e até de sexo para manter a família unida.'' No entanto, o que ela chama de ''família'' tem muito mais a ver com conforto e estabilidade financeira do que com troca afetiva. ''Pelo que se percebe, ela não acompanha de perto o crescimento dos filhos, que vivem aos cuidados da empregada. O dinheiro é a grande questão, o status, o que os vizinhos vão dizer. Eles estão criando filhotes dessa família que é doente num certo sentido. A droga é quase uma metáfora.''Evidentemente não se trata de uma comédia, ainda que o humor esteja presente em alguns momentos. ''Gosto de me arriscar. Sei que as pessoas têm uma certa resistência a temáticas que consideram pesadas, mas acho que é relevante tratar disso no palco'', argumenta Perillo. Há uma outra peça desse autor, Atentados, encenada recentemente por Beth Lopes na qual um grupo de pessoas ricas se isola numa espécie de hotel para fugir da convivência com imigrantes. ''Na Europa, os empregados são ''os outros'', latinos, africanos, os que vêm do Leste Europeu.'' No Brasil, mudam as pessoas, pouco o tratamento.Serviço O Campo. 110 min. 14 anos. Centro Cultural São Paulo - Sala Paulo Emilio Salles Gomes (110 lug.). R. Vergueiro, 1.000, Paraíso, tel. 3383-3400. 3.ª e 4.ª, 21 horas. R$ 15. Até 24/4

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