Recortes tensos desta vertigem que é viver

Miguel Rio Branco exibe imagens feitas no Japão e que devem render um livro

Maria Hirsman, O Estadao de S.Paulo

11 de maio de 2009 | 00h00

Miguel Rio Branco não se considera um andarilho, apesar de já ter viajado muito, desde menino, quando seguia de um país ao outro acompanhando o pai diplomata. Diz gostar de descobrir lugares e sempre retornar a eles, como no caso da Espanha, que o fascina por sua maneira trágica de ver a vida e que fotografou tanto quanto o próprio Brasil. Nos últimos tempos tem estabelecido raízes, raramente sai de Araras, cidade próxima a Petrópolis, onde reside. Um dos destinos de exceção, ao qual retornou algumas vezes nos últimos anos, é o Japão, país que descobriu recentemente e que lhe rendeu uma ampla coleção de imagens (como sempre) perturbadoras, marcadas por uma forte tensão entre sensualidade e morte, por uma ambígua relação entre modernidade e tradição e por uma espécie de vertigem, de desorientação, que contamina o espectador e estabelece uma metáfora radical da incapacidade do homem contemporâneo de saber que rumo tomar.Uma seleção desses trabalhos pode ser vista a partir de amanhã na Galeria Millan, em São Paulo, na exposição Divagações de um Fugu Delirante. Fugu, animal com quem estabelece uma espécie de sintonia poética, é um peixe extremamente venenoso, muito apreciado no Japão. É uma espécie de baiacu, muito visto nos aquários e que está sempre olhando os passantes, conta o fotógrafo, que se coloca um pouco na pele deles, dentro do aquário, "olhando o mundo passar".O preparo do fugu, no entanto, é extremamente delicado pois qualquer descuido no processo de retirada parcial do veneno pode ser letal. E exatamente essa questão do limiar (entre prazer e morte, ocidente e oriente, moderno e tradição, o que está acima d?água e o que mora nela) é um dos alvos preferenciais de Rio Branco. Esse trabalho específico, já parcialmente mostrado no Museu de Arte Contemporânea de Tóquio no ano passado - ao lado de um ensaio produzido, dentro do mesmo projeto, pelo fotógrafo japonês Daido Moryama no Brasil - também deverá render um livro mais amplo, a ser editado pela CosacNaify.Nas obras expostas na galeria paulistana, a figura humana quase nunca aparece por completo. Está representada por retalhos, fragmentos. Vê-se aqui e ali pedaços de corpos. Sobretudo pés, muitos deles femininos, neste caso ornamentados por saltos altos e de cores extravagantes, como na montagem um tanto caleidoscópica e marcada por um forte jogo de linhas na qual se vê o mesmo pé seguindo em diferentes direções. Mesmo nos raros momentos em que aparecem com maior inteireza, o homem (ou a mulher) estão sempre diluídos, submersos numa atmosfera perturbadora, como no caso das imagens de publicidades de teor sadomasoquista, na qual se vêem mulheres nuas e atadas, ou da impactante tomada de um velho deitado no que parece ser um banco de praça, não se sabe se dormindo ou morto. Mas certamente em abandono. Não parece à toa o fato de esse trabalho se situar diante de uma imagem assustadora de uma gigantesca engenhoca luminosa, que parece um caminhão a rumar em nossa direção ou uma máquina de jogo que quer a todo custo atrair os passantes, evidenciando que nessa exposição as montagens geradoras de significado não se dão apenas no interior de cada trabalho, mas ecoam ao longo de toda a galeria.Essa crescente manipulação da realidade pela justaposição de imagens, pela incorporação e mescla de diferentes recursos - derivados da pintura, do cinema ou da música, por exemplo - parece um caminho evidente para o fotógrafo. "Meu trabalho a cada dia se solta mais", afirma ele, acrescentando que também tem incorporado elementos da natureza em sua obra, desligando-se cada vez mais das referências urbanas. Talvez isso ajude a explicar o fato de que, além dos pés, peixes e outros fragmentos recorrentes, as flores sejam uma outra figura simbólica recorrente nessa série. Belas e cromaticamente potentes, elas podem ser reais ou sugeridas e parecem capturar o olhar do observador, atraindo-o com suas formas sensuais para depois devolvê-lo para os fragmentos do real que Rio Branco ilumina com parcimônia, por meio de um jogo econômico de luz (no qual a sombra parece sempre ocupar a maior parte do quadro) ou de uma pequena, mas potente explosão cromática. "A FOTOGRAFIA HOJE É MUITO IMEDIATISTA", LAMENTA RIO BRANCOCRÍTICA: Miguel Rio Branco vê com olhos bastante críticos os rumos atuais da arte fotográfica. Segundo ele, é difícil encontrar trabalhos de fôlego nesse campo, que abracem o caminho da experimentação. "A foto hoje é muito imediatista", lamenta ele, enquanto aposta cada vez mais no caminho da miscigenação entre os meios, reincorporando elementos do cinema e da pintura, linguagens às quais já se dedicou no passado. A música também desempenha papel importante em seu trabalho. Rio Branco conta, divertido, o comentário de um colega da lendária Agência Magnum de que o problema de seu trabalho era que "tentava fazer música com imagens". O que era uma crítica foi tomado por elogio e se faz presente de maneira cada vez mais intensa nesse momento de aposta na ruptura.ServiçoMiguel Rio Branco. Galeria Millan. Rua Fradique Coutinho 1.360, 3031-6007. 10 h/19 h; sáb., 11 h/17h (fecha dom.). Até 13/6. Abertura amanhã, 20h

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